Se tempos atrás eles eram vistos como alienados, distantes da realidade e inoportunos com seus discursos, uma nova geração de evangélicos tem conquistado adeptos para a doutrina protestante, com apelos modernos, mas que não deixam os valores tradicionais de lado. Em seus cultos, nada de roupas sociais como ternos e vestidos longos. O cabelo das mulheres têm cortes modernos e os homens usam até ''luzes''.
O número de jovens no evangelicalismo têm crescido e o Serviço de Pastores e Lideranças (Sepal) indica que em 2010 o Brasil deve chegar a 55 milhões de evangélicos (algo em torno de 29% da população brasileira). Os últimos índices apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano 2000, o total atingia 15,4% da população.
Para a cantora gospel Ana Paula Valadão, o crescimento é fruto do trabalho das gerações anteriores que hoje culmina com a ousadia dos novos líderes. ''Temos histórias de evangelistas que montavam em cavalos para levar o evangelho. Hoje temos canais de TV, rádios, CDs, uma variedade de ferramentas para atingir as pessoas'', comenta.
Há hoje uma nova forma de ser evangélico?
Nós fomos nos modernizando, mas não perdemos a essência. Não é em nossa geração que vamos bagunçar o que é reto, o que é digno. Mas podemos estar inseridos nessa cultura, podemos entrar nela com nossa essência. Eu olho os primeiros DVDs do grupo Diante do Trono, lá na década de 1990, os meninos tocando bateria e guitarra de terno e gravata, sem mobilidade, passando calor. Isso precisava ser modernizado, para alcançar o nosso tempo.
Muitas pessoas públicas não têm temido demonstrar a fé, como o jogador Kaká, que afirmou ter casado virgem por convicção religiosa. Como você vê isso?
Eu vejo que o Evangelho está chegando a todos os níveis da sociedade. Nas artes, na política, no meio dos negócios e também no futebol. Podemos ver pessoas que têm uma vida cristã verdadeira. Nós oramos para que o Kaká seja fortalecido, porque há muita tentação nesse meio. Mas é muito bom que essas pessoas se posicionem e se tornem modelo para outras.
Há um perigo que o evangelicalismo se torne um status?
Com certeza. Na história da humanidade, quando o Império Romano se rendeu ao cristianismo, isso aconteceu. As pessoas se tornaram cristãs para não pagar impostos, para ocupar cargos públicos. O cristianismo se tornou algo nominal e quando ele começa a ter muito ''ibope'' precisamos tomar cuidado, porque muitos podem apenas querer os benefícios que isso pode trazer.
Como você vê a atuação da bancada evangélica no Congresso Nacional?
É muito triste pensar que os primeiros evangélicos que assumiram posição de autoridade no Brasil deram um contratestemunho. Não vou generalizar, mas eles não conseguiram viver a vida cristã no seu papel de político. Eu preciso acreditar que é possível. Mesmo nos negócios, há tantos que dizem ''negócios à parte, minha fé é no domingo de manhã''. Eu preciso acreditar que isso não é lei, que é possível viver o correto o tempo todo.
Por que você permitiu que o padre Marcelo Rossi gravasse uma de suas músicas?
Muitas pessoas têm dito que estou me convertendo ao catolicismo, mas não é verdade. Sou firme nas convicções protestantes. Quando recebi a proposta do padre Marcelo gravar minha música ''Seja o centro'', me alegrei muito. Porque essa oração, cantada, coloca Jesus no centro de tudo e gostaria que todas as pessoas cantassem isso. Mesmo com nossas diferenças precisamos reconhecer Deus no outro.

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