É preocupante a constatação do jornalista José Tomazela, da Agência Estado e divulgada por este Jornal, de que está 'relaxada ao extremo' a prevenção contra a febre aftosa bovina na fronteira do Brasil e Paraguai. Esse repórter percorreu 150 quilômetros da divisa entre Guaira e Sete Quedas (MS) e não encontrou nenhum equipe de fiscalização atuando. Pela narrativa, o gado circula livremente entre os dois países, e os funcionários do único posto de fiscalização (muito pouco, em tão extensa linha) estavam ocupados com outros afazeres no horário de trabalho, enquanto cruzavam caminhões com gado, e à noite não ficava ninguém ali. É o caso de questionar não apenas como e quem fiscaiza o manejo do gado mas quem fiscaliza os fiscais.
De nada adianta as autoridades brasileiras dizerem que há boicote de mercados externos às carnes procedentes do Brasil se, neste país, não há o necessário zelo pela sanidade pecuária. Constata-se que, diante dos fatos denunciados pelo jornalista, há razões de sobra para a desconfiança estrangeira. Porque tudo o que é divulgado chega ao conhecimento dos importadores, e mais que isso existem seus próprios observadores, que vêem ver in loco. A região fronteiriça é considerada de ''alta vigilância'', pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, mas parece que pouco se vigia. O caso é grave. Sempre houve a suspeita de que foi trazido por gado paraguaio o surto que ocorreu dois anos atrás em Mato Grosso do Sul e resultou no abate sanitário de 6 mil cabeças e causou a suspensão da compra exterior de carnes oriundas do Brasil. O alerta, revelado por tão grandes prejuízos, de pouco serviu.
A Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal, em MS, afirma que ''a fronteira está bem vigiada'' e ''não há risco de o gado paraguaio entrar no Brasil''. Mas um pequeno pecuarista da área relatou ao repórter que ''é difícil'' um fiscal sanitário passar por ali. Outro pecuarista disse que ''o trânsito entre animais dos dois países nunca parou''. O próprio Ministério admite que as barreiras fixas foram desmontadas, crendo que a aftosa estava sob controle. Uma negligência intolerável, porque a vigilância tem de ser constante tratando-se de um negócio tão relevante para a economia nacional como a pecuária.
''O Brasil vive hoje um apagão da saúde animal'', declara o presidente da Associação Brasileira de Produção e Exportação de Carne Suína, também atento à fiscalização com da sanidade bovina. Falta gestão política da sanidade animal - resume - afirmando que a situação está contornada mas não resolvida. Hoje o Brasil já não consegue vender carne in natura (bovina e suína) para Japão, Coréia, Estados Unidos e México, e vive uma crise com a União Européia. Este é o Brasil de muito discurso governamental e pouca verdade sobre aquilo que diz que faz.

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