Relatos de violência na perda das terras e batalhas judiciais
Apesar da ex-proprietária Balbina Francisca da Siqueira ter ordenado em seu testamento que os negros não poderiam dispor das terras, estas começaram a ser desmembradas a partir da década de 1960. É neste ponto também que começam as variadas versões, histórias de violência, controvérsias e uma disputa judicial de vários rounds, quase sempre perdida pelos negros e que pode agora ser reiniciada.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), que resgatou a história dos negros apoiada por outras entidades, está pedindo para o Ministério Público federal, em Brasília, que abra processo de devolução das terras aos descendentes dos herdeiros de Balbina. Mas outro processo já foi aberto e julgado em favor da Cooperativa Agrária e seus cooperados, que estão de posse da terra. A ação, que teve o município de Pinhão como sede, recebeu o número 136-86.
O Ministério Público de Brasília repassou o pedido de nova ação para análise da procuradora de Guarapuava, Yara Queiroz Ribeiro da Silva Sprada, que estuda o caso e pediu esclarecimentos às duas partes.
A versão da CPT, com base no depoimento de alguns dos descendentes dos escravos herdeiros, vem da década de 1960, quando teriam se iniciado ameaças, algumas concretizadas, que teriam resultado em violência e na expulsão e ludibriação da maioria dos moradores da Invernada Paiol de Telha.
Em 1967, conforme escritura pública, 28 herdeiros cederam e transferiram a dois cessionários todos os direitos que possuíam ou viessem a possuir no local. Um desses cessionários, que comandou a operação, chamava-se João Trinco Ribeiro. Segundo relatório assinado pela antropóloga Miriam Hartung, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Identidade e Relações Interétnicas (Nuer), a forma dessa transferência não teria sido transparente.
''Uma pessoa chamada João Trinco Ribeiro, na promessa de realizar a divisão da área e regularizar a propriedade, já que até este momento a propriedade das terras ainda era coletiva, recolheu, nesta época, inúmeras procurações entre os descendentes dos escravos. Estes, analfabetos, desconheciam estarem conferindo amplos poderes ao Senhor João Trinco Ribeiro, poderes estes que incluíam, principalmente, a cessão de seus direitos hereditários'', escreve ela no relatório feito a pedido de um grupo de apoio à comunidade de descendentes de escravos.





