RELAÇÕES SOCIAIS 'Nova família' faz escola mudar festa para pais
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de maio de 2010
Anelise Faucz<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Atento às transformações sociais, Carlos Dorlass, diretor dos Colégios Positivo, em Curitiba, tem a coragem de falar o que muita gente já sabe: os núcleos familiares mudaram. Baseado nesse conceito, ele decidiu agir. Destituiu do calendário festivo dos alunos os dias das Mães e dos Pais e estendeu a homenagem para todos da família de seus alunos.
Por isso, a festividade agora é voltada para quem participa ativamente da educação das crianças e jovens, sejam pais, tios, avós, padrastos, madrastas, e até mesmo os novos companheiros do mesmo sexo dos pais. Isso mesmo, os casais gays também serão homenageados no evento em celebração às famílias. Especialmente se assumiram com responsabilidade a criação do aluno. O que antes era papel de pai e mãe, agora é função exercida gradativamente por outros membros da família.
O objetivo é acabar com a discriminação entre os colegas. O novo evento chama-se Dia das Famílias e tem como principal objetivo parabenizar quem realmente merece.
Por que vocês resolveram abolir a abordagem convencional de comemoração ao Dia dos Pais e ao das Mães na escola?
Readequamos o evento para homenagear quem realmente assiste o aluno. Temos casos de alunos que vivem conflitos familiares. Essas novas situações nos levaram a repensar as comemorações. Nós não vamos deixar de homenagear os pais, o que acontece é que vivemos um novo contexto familiar. Casa com um, depois separa, depois casa com outro. Uns podem pensar que a escola é insensível ao excluir o Dia das Mães e o dos Pais. Não é isso.
Houve casos na escola em que as crianças se sentiram constrangidas com a ausência do pai ou da mãe nesses eventos?
Sim, isso era uma constância. As crianças cujos pais estavam ausentes eram retiradas da comemoração e levadas para outras atividades. E no dia seguinte os colegas questionavam esses alunos, perguntando o motivo de não participarem das atividades com seus pais. Elos sofriam discriminação. É um constrangimento que podemos evitar. Temos pais que não vinham simplesmente porque não podiam, estavam trabalhando, mas sabemos que alguns alunos enfrentam situações de extremo conflito na família, como separações judiciais, por exemplo. Em 2010 já tivemos dois alunos cujas mães suicidaram-se. Como posso promover uma festa de Dia das Mães diante disso? Se a realidade muda, temos que mudar com ela.
Podemos dizer que as famílias dos alunos do colégio correspondem ao retrato da nova estrutura familiar, que o IBGE divulgou em 2006, apontando que 47% das famílias brasileiras não possuem mais a estrutura clássica de formação, de pai, mãe e filhos do mesmo casamento?
Certamente que sim. O que o IBGE mostrou é o que vivemos aqui. Observamos que nem sempre os pais e as mães são os responsáveis pelas crianças. É cada vez mais frequente uma participação mais ativa de avós, tios, padrastos na vida escolar do aluno, que se comprometem financeiramente, inclusive.
Está havendo uma quebra do preconceito?
Do preconceito não diria, mas do paradigma, claramente que sim. Ou você acompanha o processo de mudança da sociedade ou você se coloca numa redoma. Preciso propor novas soluções. A realidade é outra e preciso zelar pela moral dos alunos. Eu acho que deve haver uma nova leitura de todas as transformações sociais. Temos casais gays em número significativamente crescente. O aluno precisa valorizar a relação familiar dele, que já não é mais composta pelos membros convencionais, pai, mãe e filhos do mesmo casamento. Temos de tudo. Tem passeatas gays pelo país inteiro. E isso acontece no mundo todo.
E isso deve ser trabalhado à exaustão. A mudança é para valorizar as novas figuras que surgem no contexto familiar. Achar que ser mãe é só colocar a criança no mundo é errado. Quero que nossos alunos saibam disso. Quero que eles reconheçam com olhar solidário quem os criou. Temos pais que acham que isso aqui é um depósito de crianças. Largam os filhos às 7 horas e só as pegam às 21 horas.
O conceito de família, portanto, não se perdeu, mas a referência familiar se ampliou, com a alteração de seu núcleo. Como o senhor acha que será a família que nossos filhos irão constituir no futuro?
Tem que ser formada uma nova concepção baseada no amor. Por isso reforçamos os laços entre seus membros. O que os une é o amor.
O que faltou para as famílias de antes?
Faltou espírito solidário. Faltou entender que ser feliz é servir ao outro. O homem só se faz humano quando é educado com gratidão, respeito e tolerância. Ensinar a matemática é mostrar o caminho para desenvolver habilidades. Hoje não me interessa se você aprendeu uma equação do segundo grau, mas me interessa saber se as regras contidas no ensinamento dessas disciplinas fizeram de você uma pessoa capaz de observar, planejar e executar uma tarefa.
Como o Dia das Famílias trabalha esses conceitos?
O evento tem como desejo estabelecer união, reforçar laços. Sabe-se que as famílias com filhos em colégios como o Positivo são privilegiadas. Sugerimos um olhar solidário às famílias que perderam seus membros nas catástrofes, como os deslizamentos nos morros do Rio de Janeiro e Niterói, que aconteceram recentemente. Quero que os nossos alunos olhem para essas famílias que precisam de ajuda. Pedimos para trazer insumos para compor cestas básicas. Depois entregamos essas cestas para as ONGs que enviam apoio às vítimas. Acho importante que nossos alunos tenham conhecimento dos alimentos que compõem uma cesta básica. E também quando se negam a comer alguma comida em casa, recebem uma lição. Muitas famílias passam o mês com os alimentos contidos naquela cesta. Propusemos uma reflexão.
Como tem sido a reação dos pais com essa nova abordagem?
Uma mãe reclamou que não tinha que doar nada para ninguém, que não era obrigada. Essa mesma mãe, inclusive, se você conversar com ela, vai achar que ela age diferente, porque ela diz o contrário do que faz. Outras mães questionaram o porquê da nova abordagem. Perguntaram: ''Quer dizer que não vai mais ter Dia das Mães?''. Aí contei tudo que estou contando a você. Expus o que está acontecendo com os colegas dos seus filhos. Elas tomam conhecimento de fatos preocupantes, de situações discriminatórias. Como vou comemorar o Dia das Mães diante disso tudo? Temos que ter noção do que está acontecendo à nossa volta. Isso aqui não é um mundo perfeito. Tenho de tudo aqui dentro. Quando pontuo esses acontecimentos e justifico a nova abordagem, faço a inclusão dessa mãe na realidade na qual ela vive.


