RELAÇÕES INTERPESSOAIS - Paz deve estar presente no ambiente de trabalho
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Você é o que você ganha, o seu chefe só pode ter olhos para você e seu colega da mesa ao lado está, aos seus olhos, mais para inimigo. Nessa perspectiva voltada ao próprio umbigo, as relações interpessoais no ambiente de trabalho encontram-se, muitas vezes, na UTI e agonizando. Para combater a máxima do individualismo e do sucesso a qualquer preço, as relações de trabalho precisam de boas doses de política e ética.
É o que defende o filósofo João Vicente Hadich Ferreira. O professor da Unopar, que será um dos palestrantes da 12 Semana Interna de Prevenção de Acidentes da Folha de Londrina, aposta na solidariedade e educação como armas contrárias aos relacionamentos superficiais e à perspectiva do mercado de trabalho, ''que privilegia a exclusão e não a inclusão''. Em suas palavras, mais vale agregar que dividir. ''Temos diferenças, somos indivíduos, somos únicos, mas podemos pensar coletivamente''.
Numa sociedade que preconiza o lucro e o próprio umbigo, como andam os relacionamentos interpessoais?
Apontaria a análise a partir de uma perspectiva ética, que envolve a existência do outro, tratando mesmo da ''alteridade'', no sentido de colocar-se no lugar do outro. Falar em relacionamentos interpessoais numa sociedade em que prevalece a educação (formal ou informal) para a individualidade na maior parte, exige um olhar mais detalhado sobre as suas bases. Considerando a não generalização apontada, acredito na solidariedade e boa educação, na vontade humana de melhorar.
A máxima de que ''você é a base dos seus relacionamentos'' é válida?
Ousaria dizer que essa é uma questão que, apesar de estar na linha da psicologia, está mais para auto-ajuda. Penso que essa afirmação não deixa de ter um sentido, mas não creio que possamos absolutizá-la. Estaríamos desconsiderando outras variáveis, como o fato de existir o outro, que não necessariamente estaria sujeito a essa base. Nesse sentido, teríamos uma auto-exclusão da máxima, considerando que, se o outro é também ''a base de seus relacionamentos'', como se daria a relação entre ele e eu?
Estamos dispostos a partilhar nosso conhecimento?
Penso que, na questão profissional, há uma espécie de formação na nossa sociedade capitalista para a ''não partilha'', no sentido da estratégia de buscar a vitória porque você estaria sempre em conflito com ''adversários'' que podem roubar o seu emprego. Por isso a maioria prefere ocultar seus conhecimentos, não se expor diante do outro, seja por estratégia ou por insegurança. Particularmente, discordo. Não afirmo, com isso, que devamos ser ingênuos, utópicos de pensar que todas as pessoas serão compreensivas ou amigas. Mas ganharíamos muito mais construindo juntos, em vez de agirmos isoladamente e na perspectiva de um mercado selvagem.
Como agir nesse mercado selvagem?
Mais vale agregar que dividir. Não acredito que, no mercado de trabalho, sejamos inimigos. Temos diferenças, somos indivíduos, somos únicos, mas podemos pensar coletivamente. Quando recebo estagiários, por exemplo, espero que eles tenham uma experiência positiva na docência da disciplina que irão ministrar. Não tenho o que esconder nem o que inventar. Trabalho o que tenho que trabalhar. Tenho fragilidades, cometo erros, mas tenho algo a oferecer evidentemente. Por isso, o respeito ao outro é fundamental. Se trabalharmos na perspectiva de um mercado de trabalho apenas, teremos sempre uma mentalidade que privilegia a exclusão e não a inclusão.
As dificuldades internas devem ser mostradas ou não?
Eu não tenho receio de mostrar minhas dificuldades se, nesse sentido, conheço o outro. Conhecer o outro implica muito mais do que apenas conviver com o outro. É preciso manter a amizade e isso envolve a questão ética, do respeito ao outro, da discrição, da prudência no julgamento e de uma atitude não preconceituosa. Como isso não é comum nos ambientes de trabalho, o que vemos
são esses ambientes carregados de uma mentalidade mercadológica e não pautados numa formação ética. Isso é perigoso.
Qual a conduta que considera ser ideal, no ambiente de trabalho?
Penso na conduta ética e política como fios-condutores. Agir ética e politicamente, em qualquer condição, me parece fundamental. Isso não implica, portanto, num conformismo, na passividade funcional ou na crítica desmedida ao sistema. É preciso esclarecimento, coerência e responsabilidade. É fazer a diferença, ocupar o próprio espaço, romper com a alienação. Passa, portanto, pela realização pessoal e pela realização do outro de alguma maneira.


