A comunicação atribui poder. Nos ambientes de trabalho, a percepção dessa afirmação se torna latente. Isso porque encontramos a variação do uso desse poder, tanto para fins lícitos ou ilícitos, promoção pessoal ou promoção coletiva. As relações de poder se estabelecem por tudo que comunica. E-mails, memorandos, quem tem acesso aos jornais que a empresa assina, os móveis, a disposição dos objetos nos ambientes. Tudo, enfim, tem uma linguagem que coloca cada um em seu lugar no ambiente de trabalho.
A doutora em comunicação Sidinéia Gomes Freitas explica nessa entrevista que qualquer organização é um ''organismo vivo'', que se comunica o tempo todo com os seus mais diferentes públicos. Ela afirma que as relações de trabalho se dão via comunicação, desde um gesto, um olhar, até os relatórios, cartas, memorandos, e-mails. ''Cada uma dessas ações possui significados e significantes que atribuem ou destituem poder. É possível ver isso nas roupas, nos uniformes, nas mesas das secretárias e mesas dos chefes'', destaca.
O poder exercido de forma negativa pode atrapalhar a organização, por ser fruto do estresse social. Para explicar isso, Sidinéia dá o exemplo do burocrata, que pode permitir que as tarefas aconteçam ou não. ''Os poderosos dependem do exercício saudável do poder do burocrata comum, que pode impedir que as rotinas adequadas aconteçam. Imaginem o poder de uma secretária que estabelece uma pauta ou um assessor que encaminha um pedido'', completa.
Para o funcionário, é melhor tomar parte nos conflitos de poder da empresa ou manter-se alheio?
Isso pode variar. Mas o ideal é que o funcionário mantenha uma posição ética, se comprometendo com o que deve se comprometer. Eu já experenciei isso. É melhor manter uma postura coerente do que se sujeitar e tornar-se escravo de uma situação. Se for necessário falar, denunciar, criticar, desde que seja com fundamento, não se deve temer o poder das relações, das posições. O que é certo sempre terá espaço, se não na empresa que a pessoa estiver, com certeza em alguma outra. Não podemos temer o correto.
Qual a função da análise de perfil no momento da contratação?
É um trabalho fundamental na medida em que cada cargo exige características de personalidade que facilitarão o exercício de determinadas funções para determinada atividade. Erros na contratação em muito prejudicarão a organização e o empregado contratado. Lamento que nem sempre as organizações estejam atentas para esse fato.
Qual o papel do networking em uma empresa?
É nas redes informais, no networking (contatos entre funcionários fora do âmbito de trabalho) que os empregados são eles mesmos. Demonstram toda sua essência enquanto indivíduos. Assim, evitá-las fará crescer o autoritarismo nas organizações. As redes informais devem existir para permitir o envolvimento de pessoas entre si e com a organização. Podem e devem ser vistas em prol do desenvolvimento do funcionário, mas, ao contrário, muitas organizações reprimem as redes informais.
Diálogos e relações pessoais, no ambiente do trabalho, podem facilitar acertos?
O diálogo é uma prática de comunicação da maior importância. Começa do aprendizado de cada um em saber ouvir, não estabelecer o prejulgamento. É um exercício diário que as organizações deveriam praticar porque implica em relações pessoais mais saudáveis e julgamentos mais adequados quando se aprende a ouvir. Eu, particularmente, acredito no poder transformador da conversa, da boa conversa entre superior e subordinado. É também uma oportunidade de se conhecer melhor o outro.
Como a empresa deveria tratar os aspectos da vida pessoal dos funcionários, como luto e depressão, entre outros problemas?
Com sigilo e respeito, porque a vida pessoal de cada um de nós reflete no nosso desempenho. Há situações em que é necessária a compreensão da situação do outro. Hoje convivemos com problemas de drogas, violência urbana, enfraquecimento da estrutura familiar. Enfim, vivemos uma crise profunda dos valores, da ética. É preciso pensar no humano nesse contexto e buscar novas formas de vida mais harmoniosas no trabalho. Ninguém esquece o tratamento recebido em situação de problema.
Qual a melhor forma de reagir aos erros dos funcionários?
De forma geral, ninguém erra porque quer. Provavelmente faltou treinamento, escolaridade para o exercício do cargo, ou (houve) um processo seletivo inadequado. O problema também poderá residir em profundas diferenças entre superior e subordinado, ou na insatisfação perante o não reconhecimento na relação entre o salário e o volume de trabalho. O superior deve saber ser superior e reconhecer seus erros e os erros da organização que representa.
Qual é a postura ideal do funcionário em casos de mudança no comando e na cultura da empresa?
(Há casos de) Renovação por meio de fusão, ou por meio da venda (da empresa), como vem acontecendo. Na hora da fusão, o funcionário deve estar atentos à cultura organizacional do grupo que assume a empresa e estar pronto para se adequar. Não pode usar frases do tipo: ''No tempo de fulano...'', ou então, ''Sempre fizemos assim e deu certo''. É certo que as mudanças irão acontecer, vai continuar quem mostrar capacidade de assimilar o novo e responder positivamente a essa proposta.
Como o empresário deve agir para vencer as resistências?
Preparando, inicialmente, o público essencial (funcionários) para as mudanças que virão com transparência. A postura pró-ativa deve prevalecer e não a reativa.

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