Trocar alianças está em alta no Brasil. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o número de casamentos aumentou 34,8% na última década. Somente no ano passado, foram realizadas 959,9 mil uniões. Por outro lado, a quantidade de divórcios e separações também cresceu. O mesmo estudo mostra que em 2008 foram concedidos 179.342 divórcios no país. As separações legais, nos últimos dez anos, cresceram praticamente 100%.

''O aumento do número de divórcios aponta o melhor acesso aos trâmites formais e a mudança do papel das mulheres. O Brasil é um país onde o machismo ainda é evidente'', diz a psicóloga Lidia Weber, pós-doutora em Desenvolvimento Familiar e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Em entrevista à FOLHA, Lidia, que é autora de 11 livros sobre relacionamentos, alerta que o mundo está cada vez mais descartável e efêmero e que as novas gerações aprendem que quase tudo é substituível.

A que a senhora atribui a crescente procura pelo casamento no Brasil?
A estatística do IBGE é ainda mais interessante, pois revela que o número de pessoas que se casam pela segunda vez cresceu. Os dados apontam claramente que o matrimônio é uma instituição estável e aqueles que já experimentaram o casamento e se separaram são os que mais casam novamente. Existem várias determinantes: uma situação econômica mais estável, acesso mais fácil ao sistema de Justiça e os casamentos coletivos promovidos em diferentes regiões do País.

Estudos antropológicos revelam que casamentos e uniões ocorrem com pelo menos 92% das pessoas de todo o mundo. O ser humano gosta de compartilhar a vida e ficar sozinho é uma exceção.

O número de divórcios também aumentou significativamente nos últimos anos. Qual é a explicação para este fenômeno?
Os que se casam por razões erradas, como querer uma grande festa, ter medo da solidão, recuperar-se de um divórcio ou tentar solidificar uma relação têm uma grande probabilidade de, em pouco tempo, se divorciar.

O aumento do número de divórcios aponta o melhor acesso aos trâmites formais e a mudança do papel das mulheres também relaciona-se com esse fato. O Brasil é um país onde o machismo ainda é evidente.

Qual é o grau de contribuição da independência feminina para o número de separações?
O estudo do IBGE mostra que a grande maioria das separações judiciais foram obtidas por consenso entre o casal (76,2%). No entanto, as separações judiciais de natureza não consensual foram, em 71,7% dos casos, requeridas pelas mulheres. Às vezes elas simplesmente se cansam do comportamento masculino.

Muitas estão irrevogavelmente inseridas no mercado de trabalho e são independentes financeiramente. Por isso, não precisam aturar um relacionamento conflituoso ou insatisfatório.

Além da mudança do perfil da mulher, quais os outros motivos que levam à separação?
O mundo está cada vez mais descartável e efêmero. O sexo casual não causa mais surpresa, mulheres independentes fazem inseminações in vitro com sêmen de doador. Existe uma falta geral de altruísmo e empatia. As novas gerações aprendem que quase tudo é descartável e substituível e não investem muito nas relações interpessoais. Isso é um erro, pois um relacionamento verdadeiro é sempre dinâmico e as relações são dialéticas.

Um abalo importante é a falta de diálogo que engloba outra tarefa importante: a capacidade de negociação. O diálogo como um todo é importante, pois sabemos que a consciência é um produto social. Para chegar ao estágio dialético em um relacionamento, percebo que o diálogo é essencial, pois é preciso conhecer o outro para conhecer a si próprio. Mas isso não implica aquela situação de ficar discutindo a relação o tempo todo. Em muitos momentos, é bom somente deixar o mal-estar passar e tocar adiante.

De maneira geral, o que deve ser feito para um relacionamento afetivo dar certo?
Não existem regras perfeitas que possam servir para todos os casos. O ser humano está o tempo todo em mudança e um casal também. Um casamento, ou uma relação, sempre é um pouco ambivalente. Por exemplo, às vezes podemos sentir raiva de uma pessoa que amamos muito. Não podemos idealizar o outro ou a relação como perfeita, mas tomar consciência dos limites de cada um para proporcionar melhor equilíbrio à relação. A convivência dos opostos cria uma unidade que proporciona ao casal muito apoio vida afora. Ter um companheiro duradouro pode ser emocionante. A experiência da companhia e de ter uma pessoa com quem se cria toda uma vida é fascinante.

A pesquisa do IBGE também revelou que as pessoas estão casando cada vez mais tarde. A tendência é que isso continue acontecendo?
A visão atual do casamento é de que ele deve ser considerado uma parceria. Casa-se para ter cumplicidade e parceria para vida, mas cada um tem a responsabilidade de ser feliz por si mesmo. Atualmente, no Brasil, casar por amor é essencial. Mas para manter um casamento o amor é necessário, mas não é suficiente, ou seja, é preciso mais do que isso: objetivos comuns, características em comum, pensar nos filhos e no projeto de vida etc.

Homens e mulheres, em sua maioria, querem a mesma coisa, casar por amor, ter um companheiro, um cúmplice, amante, alguém para dar e receber afeto e compartilhar a vida.

A concepção de família mudou bastante. Muitos pais se separam, casam novamente, têm outros filhos, repensam sobre a opção sexual. Como trabalhar essas questões com os filhos?
A família ainda é a base do desenvolvimento de uma pessoa, mas o atual conceito de família é muito diversificado. De qualquer forma, é preciso saber que, em geral, os filhos sofrem com divórcios e separações, portanto, o casal deve decidir primeiro e depois contar aos seus filhos. Ao explicar a separação e o divórcio, explique claramente que os filhos não têm culpa e que os pais não vão abandoná-los. O casal nunca deve dizer algo que possa colocar a culpa no

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