Relação desigual no País
Fernando José Dias da Silva
Qual a importância do encontro de Antonio Carlos Magalhães e de Lula? Qual a importância da vaia homenageando João Gilberto? Que interesse desperta o discurso de Fernando Henrique? E da oposição? Que diferença faz a festa que a emergente carioca Vera Loyola deu para o seu cachorrinho de estimação (aliás, título brilhante de um jornal sobre o acontecido: ‘‘Donos latem em coro em festa de cadela’’)? quem se importa mais com alguma coisa?
Os cínicos e os conformados andam de mãos dadas na certeza de que nada vai mudar. E o País é assim desde a sua inauguração. Mas entusiasmo como o de agora nunca se viu. Uma depressão profunda, que não é econômica mas é psicológica, abateu-se sobre os pensantes e os que não pensam – mas tinham, pelo menos, algum projeto de vida.
Não está mais adiantando pintar o rosto como vedete, andar na corda bamba, engolir fogo, sair na rua montado em elefante. Nada mais chama a atenção, ou chama muito pouco, como a gravidez do Ronaldinho. O governo ainda tenta ocupar um espaço no palco dizendo que vai baixar os juros do consumidor, pedindo (e pedindo pelo amor de Deus) que a alta do dólar não seja repassada para os preços e tentando provar que existe investimento na área social. Mas não comove. Foram criados 172 mil postos de trabalho em setembro, mas 14,6 milhões de pessoas continuam à procura de colocação, segundo o IBGE. Além do rendimento médio dos trabalhadores estar em queda.
Assim não há entusiasmo que resista. O pão acabou. O circo baixou sua lona por causa da ameaça de assalto. E é por isso que também tanto faz saber quem está na frente das pesquisas eleitorais, se é o Ciro Gomes, se é o Lula, ou se é o candidato de FHC que nem existe. A sensação é incômoda e reflete o espírito do momento – com um ou com outro nada vai mudar.
Segundo Zaki Laidi, do Centro de Estudos de Pesquisas Internacionais, em Paris, o problema é geral, e está no fato principal de identificar a política com o Estado. Essa identificação resulta em cada vez mais decepção. Ao contrário, ao começar a refletir serenamente no sentido da política fora da ação dirigista do Estado pode-se explorar caminhos originais de uma reabilitação da ação coletiva frente ao mercado. Isso porque a política é, em definitivo, a ação coletiva, a comunidade de cidadãos e não, somente, o poder do Estado.
Para Laidi, a sociedade é, na sua atual forma, tributária do Estado. E por isso, uma política fora do Estado poderá ser entendida como uma concessão suplementar e inútil ao neoliberalismo. A relação entre a sociedade econômica e a sociedade civil é desigual. Mas, hoje em dia, há em escala mundial toda uma dinâmica social em favor de rótulos sociais e de códigos de procedimento, que tendem a responsabilizar as empresas no plano ético. E não só as empresas, mas todos os ramos de atividade sem a concorrência do Estado.
Na verdade, é colocar a política fora do Estado para estimular que o próprio Estado seja questionado, seja responsabilizado e tenha de responder a demandas exigidas pela sociedade. A política fora do Estado poderia funcionar em duas vertentes. A primeira, contrapondo-se ao vale-tudo do mercado. E a segunda, ocupando os espaços em que os poderes institucionais constituídos dentro do Estado não são mais eficientes.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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