‘‘O que os homens do Paraná executaram pelas derrubadas e queimadas do mato não pode ser descrito. Em nenhum outro país do mundo o mato é tão absurdamente destruído como aqui, e enormes áreas, que no ano de 1926 me impressionaram pela sua primitividade e grandiosidade, encontrei, em 1930, como capoeira. Não se pretende criticar os costumes do País, porém deve-se frisar a profunda influência exercida pelo homem referente à modificação da paisagem natural, mesmo em regiões longínquas e em tempo reduzido. Não de ser muito distante a época em que o Brasil se verá obrigado a manter uma silvicultura regulada, pois uma destruição ilimitada da mata não se processa durante muito tempo sem graves consequências’’.
Estas palavras são do geólogo alemão Reinhardt Maack (1892-1969), e estão na página 18 do livro ‘‘Zeitscrift der Gesellschaft Fuer Erdrunde zu Berlim’’, editado em 1931. Talvez Maack não tenha voltado ao Paraná nos anos de 50 a 60, década em que, aí sim, o machado e o fogo campearam soltos e adoidados, empunhados e ateados pelos desbravadores de novas fronteiras agrícolas.
A geologia indicava que a região do Noroeste do Paraná deveria ser simplesmente intocável, pois a natureza do seu solo é impermissível para a prática do reflorestamento. No entanto, nossos pais e avós, expulsos pela seca nordestina, amontoados nos caminhões chamados ‘‘paus-de-arara’’, capitaneados pelos conterrâneos sulistas, deitaram abaixo a mata, alimentando serrarias. Viveram, na sequência, os anos dourados propiciados pela cafeicultura. O solo era virgem e mostrava fertilidade.
Entremeando as ruas de café, plantava-se de tudo: milho, feijão, mandioca, amendoim, mamona, batata-doce, melancia, abóbora, mamão. O solo que tudo dava mas nada recebia, dada a sua consistência orgânica, ressentiu-se e disse que não suportava tamanha exploração.
O sitiante passou a deparar ainda com outras adversidades, geradas naturalmente com o surgimento de pragas e doenças. Ferrugem, nematóide, broca etc., provocaram o advento da guerra química, para gáudio da indústria estrangeira de fertilizantes, agrotóxicos, biocidas, o escambau.
O confisco cambial (de cada três sacas colhidas, uma era surrupiada pelo governo) seguido do incentivo à erradicação dos cafezais, transformou os até então grandes e produtivos aglomeramentos urbano-rurais em desertos populacionais.
Joaquins, Pedros, Antonios, Schinkawas, Schmidts, os da Silva, os Oliveira, os Pereira partiram em busca da Rondônia, do Mato Grosso, do Paraguai, esvaziando uma Maria Helena, por exemplo, que até nos anos 70 abrigava 40 mil gentes e hoje hospeda menos de 10 mil. As administrações dos grandes centros sentem o que significa o inchaço provocado pelo êxodo rural.
Diante disso tudo, atrevo-me a interrogar aos incentivadores do cultivo da soja na região do Arenito Caiuá se eles já pararam para pensar nas consequências futuras dessa idéia. Questiono os resultados de uma prática que conduz à monocultura de exportação, numa região em estágio de pré-desertificação.
A vantagem da recuperação de pastagens é o argumento que alicerça os preconizadores dessa opção. Opção que se choca frontalmente com o projeto de agricultura familiar. Alternativa que contraria toda e qualquer vontade política da fixação do homem no campo. Proposta que mostra cabalmente a carência de zoneamento agrícola.
Não basta para a sojicultura toda a região oestina do Estado, cujo solo basáltico é ideal para a sua exploração? A consistência do solo do Arenito Caiuá não se presta a culturas que exijam demasiada rotatividade. A naturza do Noroeste pedia perenidade. Sua súplica foi ignorada e o ônus da desatenção está sendo cobrado, e bem caro. Seus córregos e riachos estão praticamente mortos. Nosso paupérrimo lençol freático está apenas aguardando mais uma carga de produtos químicos para um comprometimento irremediável.
A ocupação de pastagens inviabilizadas comercialmente, já que não abrigam uma rês por hectare, por uma cultura que reconhecidamente dispensa mão-de-obra, em nada contribuirá para o retorno do homem ao campo, para a fixação da família agricultora em nossa região. Muito me estranha o total alheiamento por parte das cooperativas, entidades de pesquisa em relação ao cultivo do coco no Noroeste paranaense.
Imagino que não sentaram para pensar que num único hectare planta-se 200 árvores e que a partir do terceiro/quarto ano, elas possam produzir cerca de 100 frutos/pé/ano e que vendidos ao preço ridículo de R$ 0,30, para um mercado em france e segura expansão, ofereça ao cocoicultor uma renda de R$ 6.000,00.
Eles não consideram que essa árvore tem vida produtiva que ultrapassa meio século. ‘‘Quando você plantar um coqueiro, capriche. Você só vai fazer isso uma única vez em sua vida’’. Essa recomendação que ouvi de uma agrônoma do Centro de Pesquisa de Coco da Embrapa em Sergipe, ainda em 1986, remeto-nos à reflexão de que o pai que planta um coqueiro está transmitindo uma herança para o seu filho, que certamente a transferirá ao seu neto.
Eles não consideram que no espaçamento do plantio, o caboclo pode plantar café, milho, feijão, abóbora, maracujá, pimenta-do-reino, melancia; pode criar carneiros e galinhas.
Aguardo argumentações que comprovem que estou equivocado.
- PARREIRAS RODRIGUES é presidente da Associação Paranaense de Produtores de Coco e vice-presidente da entidade nacional

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