O censo no Brasil é produzido desde a década de 1940
O censo no Brasil é produzido desde a década de 1940 | Foto: Tasso Marcelo /Estadão Conteúdo

A possibilidade de cortes de recursos e redução da amostragem ou tamanho dos questionários do Censo 2020 está provocando reações dos pesquisadores dentro e fora do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A preocupação é que a diminuição das questões possa prejudicar a continuidade da base de dados e das políticas públicas governamentais.

O IBGE havia anunciado que o orçamento do censo seria reduzido em R$ 1,1 bilhão, porém, na quarta-feira, dia 8, a presidente do órgão, Susana Cordeiro Guerra, afirmou que o contingenciamento do órgão não afetará o processo.

O professor Edilson de Oliveira, associado ao departamento de Geociência da UEL (Universidade Estadual de Londrina), acredita que a redução do questionário, caso ocorra, deveria ser amplamente discutida, principalmente para definir quais questões podem ser suprimidas sem prejuízo às séries históricas que embasam as políticas públicas governamentais. Ele faz um comparativo do custo do censo brasileiro com o americano e questiona se o processo seria realmente tão oneroso, pensando na importância da informação gerada.

Qual a importância da produção de dados por meio do censo?

O censo produz informação para que possamos conhecer melhor a realidade do nosso País. Isso é importante para todo mundo. Vai além das políticas públicas. O censo no Brasil é produzido desde a década de 1940. Conseguimos produzir conhecimento porque existe o censo. O Brasil está envelhecendo, está aumentando o número de pessoas idosas e diminuindo o número de jovens em termos de porcentagem da população. Há uma tendência da população brasileira parar de crescer a partir de 2030, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). Eu só posso falar essas coisas porque existe o censo. Isso nos dá uma perspectiva sobre o futuro, perspectiva sobre o que fazer, o que está acontecendo. Acompanhar esse processo da densidade demográfica. Os dados também nos ajudam a tabular quantas moradias temos no Brasil. Precisamos dos dados do censo para conhecer qual é a desigualdade de renda e desemprego para saber de que maneira ela pode ser combatida. Qual a realidade do esvaziamento populacional. Tudo isso a gente consegue entender, sobre a realidade brasileira, sobre o território brasileiro a partir dos dados do censo. É uma das principais fontes de informação que falam sobre 70%, 75% dos municípios brasileiros. Isso é outra coisa importante, pois não é só produzir o dado. É conhecer no detalhe, com alto nível de desagregação. Isso dá muita segurança. E o Brasil é um país enorme, com 8 milhões de quilômetros quadrados, 210 milhões de habitantes. Então, produzir informação sobre isso é muito importante e evidentemente que tem algum custo.

É importante manter a metodologia em todas as edições do censo? Alterar essa metodologia pode trazer algum prejuízo na comparação dos dados?

Precisamos relativizar um pouco isso. O censo existe desde 1940 e foi passando por mudanças. Mas tem objetivos principais: ver como está a população, como ela está distribuída. Dizer como essa população está se movimentando. Quantos anos em média vive essa população, quantas crianças nasceram. Várias características que são fundamentais, que são informações sobre população, sobre a demografia. No Brasil também há a tradição de fazer o levantamento sobre os domicílios, que é muito importante. Mas há uma série de informações que mudam de um censo para outro. Porém, é importante que as informações estruturais sejam mantidas. O debate hoje sobre os cortes é de quanto isso pode afetar as informações estruturais, o que a gente chama de séries históricas. Quais serão essas mudanças, quão profundas serão essas mudanças? Quais as informações elas vão atingir? E quais informações podem inviabilizar a avaliação e acompanhamento ou formulação de novas políticas públicas.

Na sua avaliação, quais as informações poderiam ser mais prejudicadas, caso sejam reduzidas as questões?

A briga é para manter o que temos, manter as informações estruturais. Até onde tenho conseguido acompanhar - com um pouco mais de profundidade - o debate, há dois temas com os quais eu lido que me preocupam que são os dados de renda, renda por domicílio. A atual administração parece julgar que há pergunta demais a respeito dos rendimentos dos domicílios e que se poderia enxugar essas perguntas para apenas uma: “Qual é o rendimento dessa família neste domicílio?” Qual a renda total desse domicílio e ponto. Hoje se pergunta, por exemplo, quais são esses valores e qual a origem desse rendimento? Se esse rendimento é uma pensão, se a pessoa é viúva, perdeu o marido. Se é idoso. Se às vezes é uma pessoa com necessidades especiais que recebem aquele já famoso benefício de prestação continuada ou se a renda do domicílio é composto, por exemplo, pelas pessoas que são aposentadas. Você aí tem capacidade de avaliar a Previdência por um outro olhar. Qual é a contribuição da Previdência, por exemplo, em municípios pequenos? Qual parte da renda que circula nestes municípios é dependente dos rendimentos que as pessoas recebem da Previdência? Esse olhar para esse Brasil, sobre o qual, muitas vezes, não se presta muita atenção, que não figura na grande mídia. Os pequenos municípios, os mais afastados das capitais, dos grandes centros, onde esses rendimentos muitas vezes são fator fundamental para o desenvolvimento da economia local. Eu só posso ter isso porque o censo tem essa pergunta. Conseguimos saber, então, quais são as políticas mais efetivas para a questão do desemprego. O censo contribui para avaliar as políticas públicas.

Qual é o outro tema que lhe preocupa?

O outro seria migração. Há a proposta de enxugar as perguntas sobre migração. Essas perguntas propõem saber qual o ponto de origem da pessoa, onde nasceu, em uma perspectiva de saber se ao longo da vida ela mudou. Você costuma perguntar também qual é a duração da residência onde ela se encontra. Qual foi o último local de residência no período de cinco anos. Essas perguntas nos permitem calcular o saldo migratório por município. Isso é muito importante para identificar regiões de esvaziamento, qual é a escala do deslocamento das pessoas. Sem as perguntas perco a informação, perco a possibilidade de análise. Ninguém está dizendo que não pode fazer cortes, não pode enxugar o censo. Nada disso. É preciso pensar quais são os cortes. Agora isso precisa de tempo. Precisa ser discutido com as pessoas. Agora, o censo está aí.

O censo custa caro?

Faz-se muita comparação com os Estados Unidos. A realidade brasileira é de outro patamar. Os nossos desafios são muito próprios e precisamos de perguntas que validem isso. Temos que ter, por exemplo, uma comparação que o ex-diretor do Instituto Internacional de Estatística deu uma entrevista demonstrando que o custo é R$ 3,4 bilhões lá e cá. Quando você faz o custo por pessoa entrevistada o censo brasileiro é 20% do custo do censo americano, considerando dados de 2010. É caro para produzir informação, conhecimento e ajudar o Brasil enfrentar os desafios gigantescos que o País tem? Me parece que é uma questão de prioridade. Você coloca no quadro os cortes às universidades e financiamento à ciência e a gente fica com a impressão que é uma estratégia para desarmar, tirar a base do trabalho acadêmico que é a informação. O censo realmente custa caro para produzir informação a respeito da realidade brasileira e políticas públicas? Eu penso que não.

Olhando para a qualidade da informação produzida, como é o nosso censo em comparação com o de outros países?

O censo de maneira geral é resultado de um acordo geral no âmbito das Nações Unidas. Nem todos os países produzem censo, porque já têm outras formas de coleta de informação bastante confiáveis. A metodologia do censo brasileiro segue padrões internacionais. Cada país faz a adaptação de acordo com a sua realidade geográfica, socioambiental, histórica. O nosso censo segue padrões internacionais e não fica devendo nada para nenhum outro país em termos de qualidade. O que nós temos são mais questões porque temos uma realidade complexa e desafios próprios que precisamos enfrentar. Pode haver adequações? Claro que pode, porém isso deve ser conversado para que saia de uma forma adequada para que você não tenha perda de dados estruturais e importantes para as séries históricas e políticas públicas.

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