Os indícios da existência de cemitérios clandestinos de militantes de esquerda no Oeste do Paraná são tão fortes quanto o horror da repressão a opositores adotada pela ditadura militar (1964-1985). Até agora, havia pelo menos dois sítios suspeitos na região: um entre as cidades de Medianeira e Matelândia – próximo a Foz do Iguaçu e à fronteira com Paraguai e Argentina – e outro em Toledo (40 km a oeste de Cascavel).
Os dois sítios teriam sido comprados na década de 70 por integrantes de grupos revolucionários para, neles, ensinar técnicas de guerrilha a seus militantes. A propriedade entre Matelândia e Medianeira, supostamente localizada na comunidade rural conhecida como Linha Barreirão, teria sido comprada em 1968 por Sebastião Medeiros, carioca integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
A compra do segundo sítio, na localidade de Boi Piquá, em Toledo, teria ocorrido no mesmo ano, também pelo MR-8. A existência dos dois sítios e sua utilização pela guerrilha – e, depois, pelos militares – não foi comprovada até hoje.
Com o recrudescimento da ditadura, em 1969 o sítio da Linha Barreirão teria sido descoberto e Medeiros, preso. Confiscado pelo Exército, o local passou a ser, segundo a suposição de militantes de esquerda, local de detenção e tortura de presos políticos – como ocorria normalmente com aparelhos tomados dos opositores.
Nesse sítio, militantes da época acreditam que possam estar enterrados seis guerrilheiros brasileiros e um argentino que desapareceram em 1974, ao entrar em território paranaense vindos de Buenos Aires. Liderado pelo ex-sargento desertor Onofre Pinto, líder da então extinta Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o grupo voltava ao Brasil para lutar contra o governo de Ernesto Geisel e teria sido capturado pelo Exército.
Seguindo pistas de ex-militantes de esquerda, no final de maio do ano passado a reportagem da Folha tentou localizar o sítio da Linha Barreirão. Moradores da região afirmaram desconhecer a história. Nos cartórios de registros de imóveis de Medianeira e Matelândia não há registro de propriedade em nome de Sebastião Medeiros ou do Exército.
Condor Se realmente aconteceu, o sequestro, tortura, morte e ocultação de cadáveres dos guerrilheiros foi uma das ações resultantes da Operação Condor em solo paranaense. Inspirada na maior ave de rapina existente, habitante da Cordilheira dos Andes, a Operação Condor foi um acordo de cooperação para o combate articulado a opositores entre os serviços de inteligência de seis países sul-americanos, que viviam sob a ditadura militar.
Vigorou entre as décadas de 70 e 80 e uniu Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e Bolívia, com apoio dos Estados Unidos. Consistia na troca de informações, métodos de tortura e até de presos, e na liberdade para agir além das fronteiras nacionais.
Onofre Pinto teria sido atraído para voltar ao Brasil por um agente enviado a Buenos Aires pelo Exército brasileiro, com a autorização e o apoio das autoridades argentinas. Outra atividade atribuída à Operação Condor na região de fronteira ocorreu em 74, quando três paraguaios e um argentino, oponentes do presidente paraguaio Alfredo Stroessner (1954-89), foram caputarados pelo Exército brasileiro em Foz do Iguaçu, presumivelmente com a intenção de entregá-los ao país vizinho. Devido à pressão internacional, o grupo acabou libertado e vive até hoje no Paraná.

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