Há, nessa vida, lugar para tanta doideira mundana que, se a gente ocupar os espaços de infelicidade que existir reclama, as coisas findas (ditas muito mais que lindas) certamente ficarão...

Assim e então, enquanto os mercados seguem alinhados na busca do Santo Graal do neoliberalismo, colonizando de costumes a caráter, plantando golpes e colhendo miséria, vendendo patologias sociais (machismo, misoginia, homofobia, racismo e outras maledicências mais), latino América volta a incomodar pelo viés de nossa herança quinhentista, naquilo que nasce um Macondo em cada esquina, a rogar por nós.

Essa é a disputa final: enquanto as narrativas buscam monetização, Macondo segue despontando na fantasia que primeiro tocou nosso cotidiano, aflorando em sua ruptura nossa história ancestral.

É disso que se trata: em um mundo em constante ebulição cumulativa, há rincões isolados que, ainda, se ocupam do fantástico, da beleza e dos momentos de insurgência que despontam ao final de nossa cisma...

Penso cada vez mais nas esquinas alternativas que o interior plantou no modo de vida das gentes. Há uma lembrança viva a me abraçar e ela está feita de instantes que teimam em passar.

Minha primeira infância seria, assim, uma árvore frondosa cujos frutos aprumavam distancias e encurtavam a vivência. A vida era mais lenta e o dia presente mais vivido – enfim: as emoções tinham lugar de aflorar e as circunstâncias não eram senão circunstâncias...

O que mudou?

Mudou a percepção de que o neoliberalismo mói a pedra do existir com nossas agruras e enterra a percepção do destino na apologia de interesses privados corporativos. Há uma disputa de narrativas que colapsa as histórias fantasiosas de nosso folclore, enquanto a água da vida escorre pelos dedos de mãos que produzem.

Alimentamos, pois, uma cadeia produtiva que ensimesma a ordem profana do lucro, na mais valia da vida onde o capital sobrepõe a história ao tempo em que deslembra a fantasia.

O pensamento contemporâneo está alocado na cadeia de produção e não mais deriva das histórias fantásticas que nossos avós espalhavam em ‘causos’ de ocorridos (criados ou vividos, não importa), enquanto a teima da vida seguia o seu leito de morte, beiradeada de margens sufocantes que represavam a fantasia.

Houve um tempo em que tudo era mais lento: acordávamos com mais vagar, comíamos com menos pressa, conversávamos com mais conforto argumentativo e menos necessidade de ‘cagar regras’. Viver era, então, uma benção que o tempo nos concedia...

Não consumíamos tanto (de coisas a ansiolíticos) e, quando passávamos pela estrada o que apreendíamos era o caminho e seu pó. Essa era a moldura de ilusão que viver impunha, naquilo que a vereda esmaecia a fantasia enquanto a dor abandonava, aos poucos, nossa companhia.

Viver sempre foi mais. Quem descontinuou esse ensejo foi o tempo e sua transformação que ‘em nossa porta bate agora’, quando e enquanto o antigo dá lugar ao pós-moderno e tudo, absolutamente tudo, está impregnado de um carimbo de validade subliminar.

As coisas materiais, por circunstanciais que se anunciem, descontinuam sua trama de existir e o que seria um passo de dança, não é senão uma desilusão que flutua no espaço sem qualquer ideia na cabeça.

As narrativas estão vencendo a história na decomposição da realidade e há influenciadores (digitais ou não) que se ocupam em substituir o fato pelo boato que melhor acomode – de interesses corporativos a modalidades colonizadoras.

Estão, sim, colonizando nossos costumes e essa narrativa nega Macondo e a ancestralidade de sua existência, onde as histórias fantásticas embalavam os sonhos incipientes dos mais jovens, ao tempo em que estabeleciam hierarquia na vivencia antiga dos avós.

Não se trata de um qualquer amálgama saudosista e sim de uma pausa para respirar, naquilo que a velocidade de nossa época não reconhece espaços de sossego e instantes de meditação.

Hoje, tudo é para ontem e, ontem, nada era para além do dia presente. Foi essa mudança silenciosa que nos aprisionou enquanto produtores de conteúdo de consumo e não enquanto espectadores de nossas escolhas – suposto que cada vez mais escolhemos menos e somos mais escolhidos.

Neste boteco do fim dos tempos repousa a angústia de conviver na dobra infinita daquilo que a vida deixa escorrer pelos dedos enquanto nossas mãos se ocupam de cadeias de produção que, ao final do dia, não informam as fantasias que o tempo enterrou.

Se não tornarmos a olhar o dia como uma promessa infinita e não uma parte da semana inglesa, estaremos perdendo a Macondo secular que já não sorri nas esquinas de nossa vida.

Tristes e colonizados trópicos – nos costumes de mais valia que o neoliberalismo plantou em nossas esquinas.

Saudade Pai.

João Gomes Filho, advogado

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