Pode-se considerar aceitável o argumento da equipe econômica do governo brasileiro, quando descarta qualquer possibilidade de o País passar pelo processo que vem desmoronando as economias asiáticas. Dá-se crédito ao programa de estabilização da economia do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, deve-se cobrar insistentemente uma ação política mais objetiva no seu relacionamento com o Congresso Nacional para a aprovação das reformas estruturais, sem adendos e remendos que configurem o fisiologismo de parlamentares em ano de eleições.
A pressão é necessária para que o processo das reformas seja capaz de manter a credibilidade interna e externa no programa de estabilização, antes que se avolumem as denúncias e acusações que aconteceram recentemente, na última semana de janeiro, no Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, Suíça. Naquele ambiente, para onde convergem as elites políticas e empresariais internacionais, falou-se de maneira inconveniente e despropositada sobre a inevitabilidade de um ataque especulativo contra a moeda brasileira. Todos sabem, porém, que tal expediente decorre fundamentalmente da boataria orquestrada por megainvestidores no mercado de ações, que não estão preocupados com o aspecto macroeconômico dos países tomadores emergentes, mas apenas com a maximização dos seus lucros e a minimização dos riscos.
Um desses experts, o húngaro naturalizado norte-americano George Soros, chegou a dizer que: ‘‘O setor privado está mal preparado para alocar créditos internacionais’’, evidentemente pré-julgando aquilo que não conhece. Mas tem o poder de induzir a progressão ou redução no mercado de ações. Portanto, é preciso que o Congresso Nacional cumpra seu papel e vote rapidamente as reformas, de modo a eliminar focos de inquietação na comunidade financeira internacional, como vem alertando a imprensa nacional especializada.
O fato é que para o Brasil se ver livre do fantasma que desagrega as economias asiáticas precisa formular rapidamente uma consciência de poupança que, reconhece-se, começa a acontecer. Em qualquer país desenvolvido, a Previdência Social é o grande instrumento desse processo. No Brasil, o orçamento do setor só é menor do que o orçamento da União, ou seja, superior à de alguns países latino-americanos reunidos, um montante considerável, que não pode continuar se diluindo no enorme ralo da despesa pública. Mas a reforma previdenciária deixa a desejar, porque cultiva o viés da cultura política conservadora, mantendo privilégios e descaracterizando a lógica e necessária paridade entre os setores público e privado.
Dessa maneira, compreende-se a gritaria da sociedade pelas reformas, que não podem esperar mais, nem que seja em nome daquilo que os políticos argumentam: a necessidade de amplas negociações. O país não tem mais o tempo de sobra porque, desde o Plano Cruzado, vem esbarrando no entrave dessa cultura política arcaica e conservadora, que é dos tempos do império, quando a corte apenas beneficiava seus apaniguados. Na era da modernidade, não se pode cometer erros de estratégia e planejamento e, muito menos, no que diz respeito à decisão política, que deve ser a qualidade. Infelizmente, a decisão política continua sendo prejudicada.
Portanto, é preciso se ter em mente que, sem poupança interna, o programa de estabilização da economia continuará sendo alvo fácil dos espertalhões especuladores do mercado financeiro internacional, até que, da noite para o dia, aconteça o desastre. Mas também é preciso reconhecer que desde os tempos do Cruzado este é o momento de melhor expectativa em torno do programa de estabilização. A poupança brasileira começa a existir e tende a crescer. Basta que se acrescentem estratégia e planejamento, além de decisões políticas de qualidade.
- FARAGE KOURI é médico, empresário e presidente da FACIAP - Federação das Associações Comerciais, Industriais e Agropecuárias do Paraná.

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