Assentados na cadeira palaciana, governadores de Estado, alguns reeleitos, estão concluindo o que chamam de reforma administrativa. Afora um ou outro programa mais ousado, como o da governadora Roseana Sarney, que decidiu abolir as secretarias de governo e implantar um sistema de gerentes, o que muitos mandatários estão fazendo é uma costura mal alinhavada, feita no pano roto da caótica situação dos Estados com a agulha do apadrinhamento. A reforma cosmética dos governadores faz parte da cultura política brasileira, marcada, na administração pública, pelo signo da descontinuidade. É claro que carrega, também, uma pitada de marketing. A imprensa acaba comprando a versão de que o governo tem cara nova.
A descontinuidade é a praga da administração pública. Reflete, aliás, o caráter volúvel da sociedade brasileira. O Brasil ainda é uma sociedade em plena formação. O acelerado crescimento demográfico do País, aliado a profundas transformações no processo produtivo e a modificações correlatas na sua cultura política, além de rápidas migrações internas e do inchamento dos centros urbanos, gera, a cada ciclo, configurações novas de sociedade. E tais configurações sucessivas vão reduzindo a memória social, limitando-a a períodos curtos. Novas demandas, novas pressões, novos feitios, novas caras, novas formas de governar. Eis aí uma possível tentativa de explicar o fenômeno da flexibIilização administrativa e da descontinuidade.
Imagine-se, então, quanto dinheiro o País joga no lixo por falta de resgate da memória administrativa. Uma nova administração acaba esquecendo o que a anterior fez de bom e de ruim. Em alguns casos, começa tudo de novo. Há, ainda, o fator ciúme. Novos administradores procuram evitar o estilo dos anteriores, como forma de diferenciação e formação de identidade própria. E assim, a administração pública em nosso País, nas três esferas - federal, estadual e municipal - consegue realizar o castigo de Sísifo, aquele que traiu os deuses, sendo, por isso, obrigado a carregar uma imensa pedra sobre os ombros até o topo da montanha. Quando imagina descarregá-la, eis que ela escorrega dos ombros, levando os ‘‘pobres governadores’’ (perdão, Sísifo) a recomeçar a tarefa, que durará por toda a eternidade.
A reeleição poderia evitar a descontinuidade, pela lógica do aperfeiçoamento natural do processo administrativo. Ocorre que o apadrinhamento político acaba canibalizando o esforço renovador de quem realmente quer mudar. É por isso que muitos Estados têm estrutura inchadas, com quadros quase sempre recrutados entre parentes e amigos dos titulares, com salários desproporcionais, cargos em comissão, mordomias diversas. Abusos se cometem de todos os lados, nas casas legislativas, nos tribunais. Fosse feita uma avaliação sobre adequação das pessoas às funções e cargos, teríamos uma monumental galeria de monstrengos, a começar pela própria autoria das reformas administrativas, feitas tradicionalmente por elementos sem formação adequada, sem visão sistêmica da área pública, e quase sempre ‘‘pessoas de confiança’’ das cúpulas políticas.
O que se pode esperar de um país que faz reformas de araque? Desarranjo, desajuste, inadequações funcionais e estruturais, ausência de prioridade, falta de controle, gastança, bagunça, um samba-do-crioulo-doido. Como a crise está apertando os calos dos Estados, a hora da verdade chegou. Em alguns, como o Espírito Santo - que está pior que Minas Gerais - os governadores estão tomando medidas drásticas. Quem fez a lição de casa, como Mário Covas, em São Paulo, poderá ser bem sucedido no ciclo de crise que se instala no País. Agora, quem faz reforma com a agulha exclusiva do apadrinhamento, vai comer o pão que o diabo amassou. É esperar pra ver.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)

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