Reformar é mais que mudar nomes - Gaudêncio Torquato
Reformar é mais que mudar nomes
Gaudêncio TorquatoReformar é alterar, mudar, inovar, avançar, recondicionar, reestruturar. Reforma ministerial significa, portanto, um redirecionamento nos métodos e sistemas operacionais do governo. Se essa é efetivamente a intenção do presidente Fernando Henrique, pode-se até confiar na possibilidade de melhoria da performance governamental. Ocorre que as mudanças desejadas não dependem exclusivamente da disposição e mesmo da capacidade criativa do conjunto de ministros. Fazer quatro ou cinco alterações não vai melhorar a performance do governo. Não adianta trocar seis por meia dúzia. São necessárias algumas condições para que se alcance a tão ambicionada meta de maximizar a ação administrativa.
A primeira delas é a mudança de enfoque. O primeiro mandato de FHC foi todo orientado para a garantia da estabilidade da moeda. O preço disso tem sido muito alto, resultando no desgaste máximo da imagem presidencial. E os primeiros meses do segundo mandato praticamente foram nulos. FHC passou o tempo conversando, apartando brigas, participando de cerimônias e discursando muito. Não assumiu o segundo mandato. FHC precisa reorientar seu governo, colocando-o na malha social, ou seja, ativando fortemente programas para combater o desemprego, melhorar a infra-estrutura da saúde, fazer o mutirão da habitação, diminuir a violência, recuperar a confiança dos aposentados.
Sem investimentos na área social, nenhum governante conseguirá recompor a imagem. Portanto, a primeira lição é criar fatos que permitam a melhoria do bem-estar social. A população não quer saber se o ministro é A, B ou C e se integra ou não a base aliada. Para os setores médios, com maior acesso aos meios de comunicação, portanto, com poder crítico mais acentuado, outros fatores se fazem importantes. Por exemplo, a homogeneidade da equipe governamental, garantida pela integração dos ministros.
Fernando Henrique é talhado para a conciliação, a conversa de bastidor. Prefere adiar uma questão polêmica a ter de decidir, dando a impressão de que não quer meter o dedo em panela quente. Terá de mudar esse comportamento. É preferível a um governante errar decidindo do que procurar acertar pela tática de esconder o lixo debaixo do tapete. Já se observa alta taxa de cansaço da população pela ineficiência, atraso, burocracia da estrutura administrativa. Por isso mesmo, as mudanças também devem caminhar no sentido da agilização da máquina pública. Um bom mote para o presidente seria o do mutirão pela simplificação e agilização de processos. Ninguém aguenta mais enfrentar filas, adiamentos, entupimento de canais burocráticos.
Correr o País na esteira de um programa geográfico de contato com as regiões e o povo - eis outra idéia para aproximar o presidente do grito das ruas e do cheiro do campo. Ele está física e psicologicamente envolvido com os espaços de Brasília, que são ocupados por quedas-de-braço entre partidos e caciques, conflitos de interesses, pressões e contrapressões. Poderia deixar o articulador político tomando conta do balão político, resolvendo querelas, enquanto se reaproxima do povo.
Por último, FHC precisa fazer uma mudança de 360 graus na comunicação. Os comunicadores do governo, quando pensam em comunicação, pensam em anúncio, campanha publicitária. Erro crasso de visão. Comunicação é estratégia, é planejamento, é decisão sobre rumos, é articulação com a sociedade organizada, é mobilização de massas, é visão de conjunto, é integração do discurso com ideais comunitários, é difusão planejada de idéias junto a setores formadores de opinião, é contato estreito com os dirigentes e proprietários dos meios de comunicação, é adequada leitura do meio ambiente, é interpretação de pesquisa. Campanha publicitária é um pequeno dedo da comunicação. A presidência de Fernando Henrique nunca possuiu visão correta do conceito de comunicação. Se não quiser chegar capengando ao final da rota, Fernando Henrique deverá urgentemente reciclar suas idéias e sua postura.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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