Confusa e problemática. É exatamente assim que o professor de Língua Portuguesa Dílson Catarino enxerga a transição da antiga para a nova ortografia. As dúvidas são ainda maiores para aqueles que buscam uma vaga em concursos públicos ou vestibulares.
Apesar das duas ortografias serem válidas até 2012, as provas já poderão conter questões com as novas regras. No caso da redação, o vestibulando pode até escrever obedecendo as duas normas, mas o ideal, avalia o professor, é utilizar apenas uma ou outra.
O fato dos dicionários lançados no mercado até o final do ano passado já estarem defasados não ajuda. As edições apresentam grafias erradas em razão de uma nota explicatória divulgada somente este ano pela Academia Brasileira de Letras (ABL).
Catarino não titubeia ao afirmar que a maioria da população está totalmente perdida e que a mudança causa uma verdadeira celeuma.
De modo geral, as alterações ortográficas estão sendo bem aceitas pelos alunos e pela população?
Toda mudança é traumática, principalmente a ortográfica. A população já não tem uma cultura vasta, lê-se muito pouco e estuda-se menos ainda. Com essa mudança, acredito que a maioria da população está totalmente perdida. Por isso, essa avalanche de livros editados. A ABL editou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Nos programas de televisão, de rádio e nos jornais existem professores falando sobre isso. É uma tentativa de ajudar a população, mas realmente a transição está confusa e problemática.
E, na sua opinião, quais os motivos de tamanha confusão?
O grande problema é que a ABL, a responsável pela mudança no Brasil, editou o dicionário escolar da língua portuguesa em janeiro deste ano. Esse dicionário trouxe uma nota explicativa que traz algumas mudanças nas alterações, ou seja, a própria reforma já passou por mudanças. Sendo assim, todas as editoras até o ano passado lançaram livros defasados, que não consideram essa nota explicativa. A ABL atrasou a divulgação dessa nota, que é oficial, e trouxe mudanças altamente relevantes. Esse está sendo o problema.
Diante disso, as pessoas devem confiar em qual dicionário?
Hoje em dia o único confiável é o da Academia Brasileira de Letras, a segunda edição.
Além da nota explicativa divulgada pela ABL, que outros motivos dificultam a assimilação das novas regras?
A falta de estudo. Mesmo quem escreve muito, se não estudar as regras novas, vai escrever errado. O problema não é a falta de leitura e escrita, e sim a falta de pesquisa, o que eu acho altamente natural. Quem vai pegar um livro de português para estudar? Só quem está no colégio, na faculdade e professores de português.
O senhor acha que esse acordo - que modificou 0,5% dos vocábulos da língua portuguesa - era realmente necessário?
A reforma é inútil e o acordo desnecessário. Não havia necessidade alguma dessas mudanças - mesmo dizendo que é para unificar a língua nos países lusófonos. Não é algo bom, tanto que está a maior celeuma, a maior confusão no Brasil todo. Os portugueses não querem a reforma. Houve uma reunião em Portugal e são mais de cem mil assinaturas contra a reforma. Talvez lá ela nem seja adotada. E nós vamos ficar com cara de ''trouxas'', afinal nós mudamos e eles não vão mudar. Se eu pudesse votar, votaria contra. Mas agora que o presidente já assinou o decreto, tenho que ensinar as pessoas a escreverem de maneira adequada.
Uma dúvida que paira sobre grande parte da população é quando a nova ortografia vai ser exigida nas provas de vestibular e nos concursos...
O decreto número 6.583/08 diz que a implementação do acordo obedecerá ao período de transição de 1º de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2012, durante o qual coexistirão a norma ortográfica atualmente em vigor e a nova norma estabelecida. Ou seja, as duas ortografias são válidas nesse período. Então, o vestibular pode cobrar as novas regras.
E o candidato tem o direito de saber que a nova ortografia será exigida?
Não. O presidente assinou que até 2012 vamos conviver com as duas ortografias - a atual e a antiga. No caso da redação o aluno pode escrever dentro das duas ortografias. No entanto, o ideal é que o candidato escreva só na antiga ou só na nova.

mockup