Reforma agrária é demagogia - Luiz Bordenowski
Reforma agrária é demagogia
Luiz Bordenowski
Visitando o acampamento dos sem-terra em frente ao Palácio Iguaçu, em Curitiba, longe de encontrar subversivos, pessoas que estariam ameaçando a estabilidade política do País, isso segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, encontrei apenas famintos e desnutridos, seres humanos sem rumo em um país à deriva, o que contraria a proposta apresentada no primeiro governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, de assentar milhares de famílias de camponeses.
Lembrei-me do presidente e suas palavras de campanha quando, avocando a condição de sociólogo disse que não era possível tanta terra nas mãos de tão poucos, sem produzir quase nada, enquanto muitos agricultores não têm um palmo para plantar. Sábia colocação, que evidencia o descaso em relação ao homem do campo, notadamente nas últimas administrações, o que não deixa de refletir até mesmo uma cruel assertiva do regime militar, que rotulava os camponeses como simples subversivos.
Os poucos assentamentos já realizados, em nada devem mudar o triste quadro verificado no campo, considerando que no Brasil a palavra assentamento está ligada à concessão de um pedaço de chão para cada família, um saco de sementes e uma lona preta para proteger das chuvas. Assim, logo após serem assentados, muitos abandonam as áreas cedidas, pressionados pela fome ou pela doença, tão miseráveis quanto antes.
Os assentamentos não têm mínima estrutura, são ausentes de cooperativas, escolas, postos de saúde e de outros fatores fundamentais; na verdade, apenas uma satisfação política para a população, simples estatísticas para evidenciar que a administração que aqui está cumpre seu ineficiente papel, pois prevalece, na maioria dos Estados, a filosofia do Jeca Tatu, quando o trabalhador rural, utilizando a enxada e a foice, planta apenas arroz, feijão e milho, economia de subsistência que não gera nenhum lucro para a Nação.
O Brasil, recordista mundial em relação à corrupção e má distribuição de renda, campeão também da mortalidade infantil, pratica no campo uma política fadada ao fracasso, fator de conturbação social e que ameaça a todos, considerando a possibilidade da eclosão de sucessivos confrontos, como o ocorrido em Eldorado dos Carajás, onde pessoas foram covardemente massacradas por tropas estaduais, pois não houve qualquer baixa entre os milicianos.
Não tenho pretensão de comparar o Brasil aos países do Primeiro Mundo, que não mais enfrentam esse tipo de problema, pois esses, em tempo hábil, estabeleceram uma política agrária modelo, conciliando perfeitamente as atividades de grandes e pequenos produtores rurais, pessoas que convivem harmoniosamente.
Porém, se a reforma agrária não for tratada com seriedade no nosso País, estaremos atrasados até mesmo em relação a países da África, o que evidencia que a solução do problema do campo, longe da demagogia, somente será encontrada quando o problema for tratado com a seriedade merecida pelo Poder Público.
Em síntese, que ninguém tema e sim que todos se compadeçam com a situação vivida pelos sem-terra, cuja única ameaça é tocar o coração daqueles que os conhecem e deles se acercam, como na realidade não poderia deixar de ser.
Suas crianças que o digam.
- LUIZ BORDENOWSKI é professor e membro do Centro de Letras, em Curitiba





