O pressuposto fundamental para o sucesso efetivo do plano de estabilização da economia, lançado no final do Governo Itamar Franco, era o da realização das reformas estruturais, verdadeiramente imprescindíveis para que o processo pudesse alcançar os seus objetivos. Os responsáveis pelo projeto, porém, entre os quais o atual presidente Fernando Henrique Cardoso, que era ministro da Fazenda de Itamar Franco, sabiam que tais reformas não poderiam ser feitas de imediato, motivo pelos quais foram criados alguns instrumentos emergenciais, entre os quais o Fundo Social de Emergência, que garantia recursos para as manobras necessárias a fim de garantir o projeto. A estrutura foi muito bem armada, de tal modo que mesmo sob antigas bases o projeto decolou rapidamente, a inflação avassaladora que fazia parte da realidade brasileira foi contida e, como corolário quase inevitável, o mentor do plano, ministro Fernando Henrique Cardoso, não apenas se elegeu presidente como conseguiu maioria suficiente para ganhar sem a necessidade de um segundo turno.
A idéia natural era a de que FHC estava totalmente comprometido com o programa, vale dizer com as reformas necessárias para dar-lhe continuidade. Ocorre que depois de todo um mandato, o Governo Fernando Henrique Cardoso não logrou concluir as mudanças, sendo obrigado então a adotar ‘jeitinhos’, entre os quais a prorrogação (com alteração de nome) do Fundo Emergencial. É certo que algumas mudanças foram realizadas, mas sem a profundidade requerida. Para se justificar, o presidente alega dificuldades para conseguir do Congresso a aprovação de todas as medidas necessárias. O que prevaleceu, porém, foi o fato de não se concluir um projeto que era o fundamento da própria campanha eleitoral do presidente.
Veio nova eleição e, outra vez, Fernando Henrique Cardoso conseguiu ganhar. De lá para cá, o que se viu foi o presidente da República perdendo credibilidade junto à população, atingindo níveis absurdos de impopularidade. Nem mesmo a ligeira melhora, observada no mês passado, é suficiente para representar um resgate da confiança que o presidente chegou a conquistar desde que surgiu como o principal responsável pelo chamado Plano Real. Vale observar que os números menos ruins do último mês se devem a uma retomada do crescimento econômico, que também depende da concretização das bases para que o plano de estabilidade permaneça.
Já na metade do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, a expectativa era a de que a principal das reformas, a tributária, finalmente se concretizasse. Era importante que a emenda fosse aprovada e promulgada este ano, para poder vigorar já em 2001. Entretanto, a possibilidade de a reforma tributária ser votada este ano foi enterrada depois de encontro de líderes dos partidos com o presidente da Câmara, Michel Temer. Eles decidiram que, diante das inúmeras divergências em torno da oitava versão apresentada pelo governo, não havia possibilidade de dar sequência, este ano, à discussão do projeto. O presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, disse que um dos motivos que levaram ao adiamento da reforma tributária foi a posição do governador de São Paulo, Mário Covas, contrário à proposta. O resultado disto é mais um ano de atraso, com o aumento no risco de se perder boa parte dos sacrifícios feitos para garantir o êxito da atual política econômica. Uma situação no mínimo inaceitável para um povo que tem feito o impossível no apoio a um governo que insiste em fugir de suas responsabilidades, deixando para depois o que deveria ter sido feito há anos, com enormes prejuízos ao Brasil inteiro.

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