Reflexos da pandemia e a cultura escolar
Nos últimos meses, brasileiros e brasileiras têm vivido tempos de vigilância provocados pela pandemia da covid-19. Na reclusão dos lares, a adoção de novos hábitos fizera-se necessário para enfrentar esse inimigo tão atípico e desconhecido; mas, mais do que criar novos hábitos ou adaptar àqueles existentes a atual realidade do cotidiano, esse período sem dúvida, colocou a prova a dinâmica social e cultural em que estamos inseridos, expondo de “forma nua e crua” a fragilidade das estruturas do nosso sistema econômico, político e social. Nessa exposição desenfreada da natureza um tanto quanto delicada dos pilares da sociedade, a escola, enquanto instituição atravessada pelas questões sociais, políticas e principalmente culturais, não se mantém imune a toda essa movimentação; ao contrário, ela também amarga os efeitos da situação, pois vê toda uma estrutura organizacional perpetuada ao longo dos anos apresentar o ápice de sua debilidade; dessa vez, não apenas em resultados de avaliações, mas na sua funcionalidade enquanto dispositivo de operações complexas que envolve o ato de ensinar. Com a restrição social, para evitar a suspensão das atividades acadêmicas, muitas instituições universitárias e secretarias de educação definiram como estratégia para contornar a situação, a transposição de toda uma prática metódica de ensino baseada quase que exclusivamente em quadro negro e giz para a Educação a Distância (EAD), que mesmo nos dias atuais e com toda essa revolução tecnológica observada, ainda é considerada “excêntrica” quando não “marginalizada” por muitos de nós, sobretudo pelos assíduos defensores de uma “educação tradicional”. Frente a este cenário, muitas dessas instituições aproveitam das brechas que a linguagem nos permite e difundiram entre seus escolares o conceito de “aulas remotas”, agindo como uma espécie de alternativa capaz de abrandar os possíveis efeitos negativos da hostilidade que culturalmente criou-se sobre o termo “Educação a Distância” ou simplesmente “EaD”. Seja como for, no cerne da questão, a essência é a mesma. Nas redes sociais, tornou-se corriqueiro encontrarmos “vozes” de docentes e alunos denunciando seus sentimentos de indignação, motivados principalmente pela sua falta de letramento e familiaridade para aplicação dos recursos exigidos pela modalidade. Seria isso uma falha dos processos de escolarização? Podemos dizer que sim, já que os espaços de ensino-aprendizado aparentemente estão alguns anos atrasados frentes as novas tecnologias; igualmente, podemos dizer que não, já que universidades e escolas educaram seus indivíduos para atuarem na realidade que os circundam. Provavelmente, essa seria uma questão não tão fácil de esgotar suas possibilidades de respostas; mas todo esse episódio nos revela um fato que já se faz velho conhecido nosso e que não podemos ignorar; sem dúvidas a cultura escolar brasileira está um tanto quanto obsoleta e necessita urgentemente ser modificada para acompanhar o desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade. Uma reforma que vá além da seleção de conteúdo para o currículo e a adoção de novos livros didáticos, mas que também ocorra na cultura que norteia os processos de formação de professores e gestores educacionais e, consequentemente na educação das próximas gerações.
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de maio de 2020
Nos últimos meses, brasileiros e brasileiras têm vivido tempos de vigilância provocados pela pandemia da covid-19. Na reclusão dos lares, a adoção de novos hábitos fizera-se necessário para enfrentar esse inimigo tão atípico e desconhecido; mas, mais do que criar novos hábitos ou adaptar àqueles existentes a atual realidade do cotidiano, esse período sem dúvida, colocou a prova a dinâmica social e cultural em que estamos inseridos, expondo de “forma nua e crua” a fragilidade das estruturas do nosso sistema econômico, político e social. Nessa exposição desenfreada da natureza um tanto quanto delicada dos pilares da sociedade, a escola, enquanto instituição atravessada pelas questões sociais, políticas e principalmente culturais, não se mantém imune a toda essa movimentação; ao contrário, ela também amarga os efeitos da situação, pois vê toda uma estrutura organizacional perpetuada ao longo dos anos apresentar o ápice de sua debilidade; dessa vez, não apenas em resultados de avaliações, mas na sua funcionalidade enquanto dispositivo de operações complexas que envolve o ato de ensinar. Com a restrição social, para evitar a suspensão das atividades acadêmicas, muitas instituições universitárias e secretarias de educação definiram como estratégia para contornar a situação, a transposição de toda uma prática metódica de ensino baseada quase que exclusivamente em quadro negro e giz para a Educação a Distância (EAD), que mesmo nos dias atuais e com toda essa revolução tecnológica observada, ainda é considerada “excêntrica” quando não “marginalizada” por muitos de nós, sobretudo pelos assíduos defensores de uma “educação tradicional”. Frente a este cenário, muitas dessas instituições aproveitam das brechas que a linguagem nos permite e difundiram entre seus escolares o conceito de “aulas remotas”, agindo como uma espécie de alternativa capaz de abrandar os possíveis efeitos negativos da hostilidade que culturalmente criou-se sobre o termo “Educação a Distância” ou simplesmente “EaD”. Seja como for, no cerne da questão, a essência é a mesma. Nas redes sociais, tornou-se corriqueiro encontrarmos “vozes” de docentes e alunos denunciando seus sentimentos de indignação, motivados principalmente pela sua falta de letramento e familiaridade para aplicação dos recursos exigidos pela modalidade. Seria isso uma falha dos processos de escolarização? Podemos dizer que sim, já que os espaços de ensino-aprendizado aparentemente estão alguns anos atrasados frentes as novas tecnologias; igualmente, podemos dizer que não, já que universidades e escolas educaram seus indivíduos para atuarem na realidade que os circundam. Provavelmente, essa seria uma questão não tão fácil de esgotar suas possibilidades de respostas; mas todo esse episódio nos revela um fato que já se faz velho conhecido nosso e que não podemos ignorar; sem dúvidas a cultura escolar brasileira está um tanto quanto obsoleta e necessita urgentemente ser modificada para acompanhar o desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade. Uma reforma que vá além da seleção de conteúdo para o currículo e a adoção de novos livros didáticos, mas que também ocorra na cultura que norteia os processos de formação de professores e gestores educacionais e, consequentemente na educação das próximas gerações.
Espaço Aberto 
Nos últimos meses, brasileiros e brasileiras têm vivido tempos de vigilância provocados pela pandemia da Covid-19. Na reclusão dos lares, a adoção de novos hábitos fizera-se necessário para enfrentar esse inimigo tão atípico e desconhecido; mas, mais do que criar novos hábitos ou adaptar àqueles existentes a atual realidade do cotidiano, esse período sem dúvida, colocou a prova a dinâmica social e cultural em que estamos inseridos, expondo de “forma nua e crua” a fragilidade das estruturas do nosso sistema econômico, político e social.
Nessa exposição desenfreada da natureza um tanto quanto delicada dos pilares da sociedade, a escola, enquanto instituição atravessada pelas questões sociais, políticas e principalmente culturais, não se mantém imune a toda essa movimentação; ao contrário, ela também amarga os efeitos da situação, pois vê toda uma estrutura organizacional perpetuada ao longo dos anos apresentar o ápice de sua debilidade; dessa vez, não apenas em resultados de avaliações, mas na sua funcionalidade enquanto dispositivo de operações complexas que envolve o ato de ensinar.
Com a restrição social, para evitar a suspensão das atividades acadêmicas, muitas instituições universitárias e secretarias de educação definiram como estratégia para contornar a situação, a transposição de toda uma prática metódica de ensino baseada quase que exclusivamente em quadro negro e giz para a Educação a Distância (EAD), que mesmo nos dias atuais e com toda essa revolução tecnológica observada, ainda é considerada “excêntrica” quando não “marginalizada” por muitos de nós, sobretudo pelos assíduos defensores de uma “educação tradicional”.
Frente a este cenário, muitas dessas instituições aproveitam das brechas que a linguagem nos permite e difundiram entre seus escolares o conceito de “aulas remotas”, agindo como uma espécie de alternativa capaz de abrandar os possíveis efeitos negativos da hostilidade que culturalmente criou-se sobre o termo “Educação a Distância” ou simplesmente “EaD”. Seja como for, no cerne da questão, a essência é a mesma.
Nas redes sociais, tornou-se corriqueiro encontrarmos “vozes” de docentes e alunos denunciando seus sentimentos de indignação, motivados principalmente pela sua falta de letramento e familiaridade para aplicação dos recursos exigidos pela modalidade. Seria isso uma falha dos processos de escolarização? Podemos dizer que sim, já que os espaços de ensino-aprendizado aparentemente estão alguns anos atrasados frentes as novas tecnologias; igualmente, podemos dizer que não, já que universidades e escolas educaram seus indivíduos para atuarem na realidade que os circundam.
Provavelmente, essa seria uma questão não tão fácil de esgotar suas possibilidades de respostas; mas todo esse episódio nos revela um fato que já se faz velho conhecido nosso e que não podemos ignorar; sem dúvidas a cultura escolar brasileira está um tanto quanto obsoleta e necessita urgentemente ser modificada para acompanhar o desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade. Uma reforma que vá além da seleção de conteúdo para o currículo e a adoção de novos livros didáticos, mas que também ocorra na cultura que norteia os processos de formação de professores e gestores educacionais e, consequentemente na educação das próximas gerações.
Matheus Vitor, aluno do programa de Mestrado em Ensino da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Londrina


