O Grito dos Excluídos, protesto contra a política do governo, o neoliberalismo e a globalização, organizado pela CNBB e que teve como ponto culminante o palanque político armado na Basílica de Aparecida, leva a uma reflexão que começa com a seguinte pergunta: A Igreja Católica espelha a fé no poder ou o poder da fé? As duas coisas, dirão principalmente os leitores católicos de esquerda, que aliás ilustram uma novidade, pois até há pouco tempo ou uma pessoa era católica, aceitando como inquestionável a existência de Deus, da vida eterna e da imortalidade da alma, ou era de esquerda, quer dizer materialista, atéia, sem qualquer crença em algo que transcendesse os sentidos físicos.
Mas voltando à Basílica de Aparecida, note-se que os romeiros que lá compareceram para agradecer graças recebidas ou pedir proteções divinas, atestaram o mesmo poder da fé de milhares de pessoas que se reúnem em santuários em busca de paz interior, de consolo espiritual e de encontros com o plano dos milagres e das maravilhas da divindade. Essa manifestação de fé popular, porém, não está em si restrita à Igreja Católica, em que pese sua pregação específica em torno de certas concepções e dogmas. Não é um monopólio eclesiástico essa busca do sagrado que anima os indivíduos em todas as partes da terra. Em outros santuários, seja em Meca, em Jerusalém, na Índia, no Tibete, no Japão, em Benim na África, onde o vodu deita raízes, em todo o mundo enfim, o homem busca o encontro consigo mesmo através dos vários nomes de Deus. E assim, cada religião que pensa ter o monopólio da verdade possui apenas o fragmento da verdade única, que como um espelho partido expressa em partículas múltiplas a variedade das crenças existentes. Entretanto, conforme sejam as religiões manipuladas por seus dirigentes, podem se transformar em veículos de fanatismo ou de tolerância, de evolução ou de regressão humana, e ainda podem servir de guia para quem busca o caminho da eternidade ou de trampolim para o poder e para os privilégios sem conta das castas investidas de autoridade religiosa.
No caso da Igreja Católica, passados seus primórdios, se a fé nos ensinamentos de um Mestre iluminado como Jesus prevaleceu ao longo do tempo no coração de muitos homens, a organização e a escritura eclesiástica, apesar da presença de grandes místicos e de autênticos religiosos, esmoreceu na fé e cresceu em poder. Como afirmou Carlos Rangel no seu livro ‘‘Do bom selvagem ao bom revolucionário’’: ‘‘... a Igreja Católica foi sempre e quer continuar a ser uma trave mestra das estruturas do poder, do poder temporal se possível, se não, pelo menos do poder espiritual nas sociedades em que intervém; e quem poderá, de boa fé, distinguir a linha de demarcação entre esses dois domínios de poder’’?
No caso específico da América Latina, é extremamente interessante a análise de Rangel. Na sua obra acima citada, e que foi editada em 1976, portanto há 21 anos, ele já diagnostica a situação da Igreja Católica que agora só faz se aprofundar, inclusive no Brasil. Vejamos o que ele escreveu:
‘‘Podemos, pois, perguntar-nos se a América Latina não ocupará um lugar de eleição nas análises do Vaticano sobre o panorama geral do catolicismo no mundo, e até se certas decisões de ordem geral e muito importantes, como a détente nas relações da Igreja como o mundo comunista, não terão como objetivo facilitar o desenvolvimento atual e futuro da Igreja latino-americana, e de alargar seu campo de ação na luta para embraiar de novo a dinâmica social de países onde noutros tempos o catolicismo soberano determinava praticamente todos os aspectos da vida dos indivíduos e da sociedade’’.
Agora não existe mais o mundo comunista, e assim, ao invés de détente, pelo menos parte da Igreja assume a ideologia que não deu certo em parte alguma. Estimulando o que entendem como ‘‘luta de classes’’,com base nas desigualdades sociais que nos tempos coloniais ajudou a criar ou foi conivente, tanto o alto clero como o baixo clero se lançam a uma espécie de cruzada. Sagra cavalheiros líderes dos chamados sem-terra e coloca em suas mãos não espadas, mas armas modernas e mortais. Não importa se a violência se espalha, ou se o campo se desestrutura, ou se os ódios se soltem com intensidade. Guerra é guerra, e tudo vale se a meta é o poder, sendo que essa fé no poder já moveu no passado muitas ações da Igreja. Recorde-se, por exemplo, a Nova Inquisição.
Creio, porém, que um detalhe agora distingue as ações políticas eclesiásticas das do passado: a Igreja não está conseguindo imprimir na sua cruzada atual a marca de guerra santa, não é mais capaz de transformar os que lutam em guerreiros fanáticos de exercícios imbatíveis, pois lhes falta a fé. Em parte isso se dá porque na América Latina, inclusive no Brasil, a fé católica sempre foi mais de fachada para a maioria, dificultando agora a inclusão da religiosidade nos movimentos ‘‘revolucionários’’ liderados pela Igreja. Por isso o Grito dos Excluídos saiu de tão poucas gargantas. Barulhão mesmo fazem romeiros em todas as partes do mundo.

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