Reflexões sobre o trabalho
Não sei se foram os muitos dias sem trabalhar - que os brasileiros se outorgam anualmente, durante os festejos do Carnaval - que me levaram a fazer uma reflexão sobre o sentido do trabalho na nossa cultura. Mas aconteceu.
Sempre me assustou a idéia de que essa palavra comum a praticamente todos os povos de idioma latino - trabalho, trabajo, travail, travaglio - tenha sua origem num instrumento de tortura medieval: o tripálio. Em latim tripalium.
Este objeto nasceu, inocentemente o bastante, na agricultura. O sufixo tri indica claramente que se tratavam de três hastes, as quais, entrelaçadas, serviam para fixar, inicialmente, os animais para facilitar sua manipulação pelos criadores. Pode-se imaginar que perversidades foram cometidas durante a Idade Média a partir de tal mecânica.
Mas o termo que os romanos utilizavam para designar o trabalho - laborare - e que produziu filhotes semânticos em quase todas as línguas - como labor ou lavoro - também não surgiu de nada muito agradável. Os dicionários etimológicos atestam das relações dessa palavra com cansaços, exercícios e sofrimento.
Resta o work, dos ingleses, que é bem próximo do werk alemão. A busca dessa origem termina no grego ergon - e, se você clicar essa palavra numa busca pela Internet vai encontrar uma porção de empresas que adotaram esse nome como marca, que tem a ver com energia. O ergon (work) está no nosso idioma, na palavra cada vez mais usada ergonomia. Curiosamente, contudo, ergon, em grego, é uma variação de outra palavra, organon, que significa arranjo ou
organização.
Ora, arranjar é mexer, é perturbar, incomodar, transtornar, interromper - é fazer com que alguma coisa deixe o estado natural. O que acaba por dar sentido lógico às primeiras definições que se aprendem sobre as atividades econômicas que se reduzem aos intercâmbios entre natureza-capital-trabalho.
É trabalho, portanto, toda modificação exercida na natureza - seja pelo homem ou por qualquer outro ser vivente. Essa percepção terá levado Bertrand Russell à reflexão de que existem apenas dois tipos de trabalho: um é o de alterar a posição de matérias em relação a outras matérias, sobre a superfície terrestre; a segunda é de mandar outras pessoas fazer isso. A primeira é desagradável e rende pouco; a segunda é prazerosa e muito bem remunerada.
Como se vê, não são exclusividade nossa - nem dos cidadãos das sociedades de origem latina - as invectivas contra o trabalho. De novo, foi na rede que consultei uma compilação de 160 citações a respeito, todas mais ou menos críticas, feitas pelo poeta rebelde norte-americano dos anos 60, tornado filósofo internauta, Tuli Kupferberg.
A primeira é a infame Arbeit macht frei, à entrada do campo de Auschwitz. Faz-se a volta ao mundo com: Mudar de trabalho é um descanso (provérbio irlandês); De cada um conforme suas habilidades, a cada um conforme suas necessidades (Marx); Bons trabalhadores raramente ficam ricos (provérbio inglês); Os que se ocupam muito com o trabalho nunca ficam sabendo das notícias (provérbio tcheco); Sou fascinado pelo trabalho. Posso sentar-me e ficar contemplando-o durante horas (Jerome K. Jerome); Através do trabalho, o homem se liga fortemente à realidade chamada comunidade humana (Freud); É
mais difícil não trabalhar do que trabalhar (David Wolfssohn); O trabalho é dever de todos os cidadãos da República (Constituição da URSS); Trabalho é um dever social (Conselho Fascista da Itália) ; Laborare est orare (Ordem Beneditina); O excesso de trabalho mortifica a alma (Seneca); Trabalho é tudo aquilo que se obriga o corpo a fazer e lazer é tudo que aquilo que o corpo faz sem ser obrigado (Tom Sawyer/Mark Twain); Trabalho é bom, se você
não se esquecer de viver (provérbio banto).
Mas a que me deixou entre intrigado e perplexo é de Henry Thoreau, o proponente da desobediência civil, extraída do livro Walden, de 1854: Durante mais de 5 anos, consegui manter-me apenas com o trabalho das minhas mãos. Foi assim que descobri que, com o trabalho de seis semanas durante o ano, eu conseguia produzir tudo o de que precisava para viver durante todo o inverno e a maior parte do verão. O resto do tempo eu podia dedicar-me a estudar.
J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é empresário em São Paulo





