Reflexões sobre o terceiro milênio
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de novembro de 1996
Maria Lucia Victor Barbosa 
Aproxima-se um novo milênio. Pelo menos no tempo que o homem inventou, e sem o qual a vida se tornaria bastante complicada, pois não se saberia a idade de ninguém, seria impossível acertar-se compromissos e os encontros se dariam por acaso. Foi preciso, então, dividir o que se chamou de tempo, e com base em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, séculos e milênios, a História pode desfilar em livros escolares e acadêmicos, determinou-se o nascimento de grandes vultos da humanidade e viajar no horário marcado ou ir ao dentista tornou-se possível.
Mas o que sabe o homem sobre o tempo? Só superficialidades, porque a eternidade é um conceito que ultrapassa sua reduzida compreensão. Mesmo assim, tendo sido o ser humano desde as eras mais remotas inclinado a mágicas, mitos e crenças que pudessem dar sentido aos fenômenos produzidos ao seu redor ou dentro dele mesmo, das manifestações da natureza aos sonhos, conferiu também à sua divisão do tempo um caráter que foi além do prático para se tornar lendário. Assim, em certas datas marcantes, a humanidade conjuga algumas de suas características essenciais, com o medo do desconhecido e a necessidade da esperança, e cria futuros imaginários, facilmente disssipados pela realidade, mas que teimam em voltar quando novamente um ciclo de tempo se completa.
Deste modo, nas passagens de ano, quando os relógios anunciam a meia-noite, as pessoas se confraternizam e desejam que dias melhores aconteçam no ano seguinte, como se pudessem criar com seus votos um tempo imaginário, sem doenças e contrariedades, pleno de amor e, sobretudo, privilegiado em termos de riqueza.
Isso, evidentemente, não impede que no ano seguinte aconteçam tantas coisas boas quanto desgraças de todo tipo, ou que para alguns indivíduos a monotonia de suas vidas seja uma continuidade. Sempre haverão catástrofes, e muitos irão nascer enquanto outros morrerão. E o homem, que agora tem à sua disposição a mais avançada tecnologia, a qual não cessa de progredir rapidamente, continuará de modo geral totalmente desinteressado do conhecimento, e por isso incapaz de avaliar o que se passa no planeta.
Aliás, meia-noite é um marco muito especial. É nesse horário, segundo algumas lendas, que fantasmas surgem para assombrar, o conde drácula abre os olhos avermelhados e se levanta da tumba, e todas as criaturas da noite abrem caminho pela mágica brecha de tempo que acontece ao soar doze badaladas. Mas também é à meia-noite que Jesus nasce, Papai Noel desce pela chaminé e o encanto da gata borralheira se dissipa.
Mesmo levando-se em conta os fusos horários, meia-noite em qualquer lugar se presta a um mágico imaginário, que nem as modernidades de agora puderam destruir. Nesse horário, monstros do inconsciente coletivo são soltos, e os humanos se defrontam consigo mesmo em forma de fantasia. É a hora do lobisomem. Meia-noite é, pois, passagem, tendo por isso seus rituais. É instante de mudança, a demonstrar que nada permanece igual. Muda o dia, o século, o milênio, essas fronteiras de um novo acontecer.
Agora estamos quase chegando ao terceiro milênio. Isso quer dizer que se completarão na contagem inventada um período de dez séculos, ou de mil anos. Um tempo enorme para nossas vidas minúsculas, e que por isso mesmo assume características marcantes, ligadas não só a promessas de futuro quanto a temores ancestrais. Faltam pouco mais de três anos para se ingressar no ano 2.000. E muita gente pensa que esse curto período há de preparar coisas extraordinárias, que eclodirão a partir do novo milênio. Uns temem o fim do mundo, tantas vezes apregoado e jamais consumado. Outros profetizam com imenso otimismo uma Nova Era, a Era de Aquarius, como se as criaturas humanas pudessem subitamente abandonar o egoísmo, a ambição e a ignorância, transformando-se em seres angelicais. No entanto, tivemos bilhões de anos para nos tornarmos melhores, e continuamos do mesmo jeito.
Estamos também naquela conjuntura, na qual ressurgem com novas roupagens e idêntica substância o milenarismo, a lembrar as doutrinas de certos escritores dos primeiros séculos e de certas seitas cristãs, segundo as quais Cristo reaparecerá na Terra para reinar durante mil anos.
Com base nesse tipo de crença, se multiplicam movimentos messiânicos, fazendo com que os homens se lancem em busca de salvadores e salvações que os livrem das misérias deste vale de lágrimas, e os resgate para a plenitude onde tudo é felicidade. É o antiquíssimo paraíso que retorna para ser alcançado. Ou o inferno bíblico do apocalipse ressurgindo para sinalizar aos humanos que eles precisam tomar jeito, caso contrário se extinguirão.
Entretanto, sábia foi a palavra de Dom Lucas Moreira Neves, que recentemente escreveu: O milênio será bom e propício, se todos assim o que quisermos e assim o fizermos. De fato, é ao homem que compete construir uma nova era, onde ao progresso material possa somar o avanço espiritual. O resto é superstição.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.


