Reflexões sobre o discurso papal - Walmor Maccarini
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quarta-feira, 08 de outubro de 1997
Walmor Maccarini 
Buscar em primeiro lugar o Reino (...), e todas as coisas (as coisas temporais) serão acrescentadas. Está escrito. Portanto, a casa não pode ser edificada sobre a areia, mas sobre a rocha. Em outras palavras, não se resolve nenhum problema social sem antes resolver o espiritual.
A Igreja Católica - ainda em festa, no Brasil, pela visita do papa - insiste em estribar seu ministério nas causas sociais, mas não é isto que esperam dela os fiéis. O papa João Paulo veio ao Brasil, dezessete anos depois da primeira visita, e repetiu o discurso das nossas diferenças sociais. Neste longo período não mudaram essas diferenças, sinal de que pouco ou nada valeu o antigo discurso. Por uma razão simples: não é por aí o caminho. Porque as pessoas se comovem pela presença fisica do Pontífice, da mesma forma que se comoveria pela presença da Lady Di, saem cheias de esperança (de relativa duração), mas falta-lhes ouvirem palavras de revelação e de sabedoria que as toquem e as convertam. Os mistérios guardados em seus escaninhos ele não revela.
Maior peregrino de todas as igrejas, em todos os tempos, líder espiritual de 100 milhões de católicos no Brasil e 1 bilhão espalhados pelo mundo, respeitado por diferentes facções religiosas, por governantes e nações - do papa espera-se que venha nos falar exclusivamente de Deus e suas graças, porque é destas palavras que estamos famintos. Não de sem-terra, de sem-teto, de adultério e relações conjugais, e mesmo da família, enfim questões ainda muito terrenas e - da forma como são postas - impregnadas de ego. A família, se esta se desmorona, é porque lhe falta a luz da espiritualidade, e a igreja tambem não dá às suas indagações respostas sustentáveis, não a nutre com o ensinamento sábio, a começar da escola dominical e do discurso dos púlpitos. Entendeu que inovar seria atualizar-se enveredando pelos caminhos políticos do discurso social. Aí equivocou-se. Os fiéis praticantes, então, vão abandonando os templos, e nem para outras igrejas se bandeiam porque a reza é a mesma.
Cada um de nós, que encerra no inconsciente a centelha divina, quer ouvir palavras de revelação, que toquem nossa essencia mística e contemplativa, que reativem nossa memória do paraiso, que nos redespertem para as verdades que residem em nosso íntimo mais profundo. Onde cada um hospeda Deus mas disto foi perdendo a consciencia.
Neste final de milênio, quando as igrejas do espetáculo semeiam o terrorismo de que somos filhos do pecado, possuídos pelo demônio e vítimas da ira divina, espera-se que alguem mais lúcido venha nos dizer que somos filhos de Deus, que Ele nos chama para a santidade e que estamos todos salvos, porque gerados da luz e não da treva. Que o papa venha reavivar nossa consciência de que o Pai em nós faz as suas obras. Sois deuses - nos revelou o Mestre, e como tal aptos a fazer as coisas que ele faz, e ainda melhores. Está escrito.
Jesus, que amava tanto os pobres quanto os ricos, aos alinhados e aos desgarrados, nunca se ocupou de problemas sociais, antes nos advertia que buscássemos em primeiro lugar o Reino, porque não só de pão vive o homem. A igreja deveria repetir estes ensinamentos, mas perde-se no materialismo cego das questões sociais. Se ensinasse que o Pai em nós é que realiza todas as obras, ao invés de nos ensinar a só Lhe pedir e pedir, qual mendicantes de pouca fé e descrentes de que Ele já nos deu e dispôs todas as coisas, veria operar-se a solução de todas as necessidades terrenas. Não é um mal o homem buscar seu bem-estar e usufruir dos bens que a Natureza Divina concedeu. Ao contrário, um dia teremos que Lhe explicar porque não os aceitamos, e ainda prestar-Lhe contas pela nossa pobreza.
Pela graça obtemos todas as coisas, eis que já as temos, em abundância, dispostas que foram, como dádivas. Se rendemos graças por tê-las, mesmo sem vê-las diante de nossos olhos carnais, elas se manifestam, próximas e ao nosso alcance. Não precisamos tomar nada de ninguém. Buscar o Reino, primeiro - e isto significa nos conectarmos de novo com nossa divindade, de onde somos originados - e todas as demais coisas virão por acréscimo. Bastaria que, plenos de fé e consciencia, ao desejarmos algo pronunciássemos: Não eu, mas o Pai em mim, ordena que... (e manifestar a graça que se quer, sem pedir). O eu nada pode, então é inútil pedir, porque o que existe é uma unidade: Deus no homem. Não eu, mas o Pai em mim é quem faz todas as coisas. Está escrito, mas as igrejas não entregam aos fiéis esta chave do mistério bíblico.
O homem está muito próximo de renascer para o entendimento de que é espiritual em sua origem e essência, e já farto da cantilena de que é pecador, possuído pelo demônio e cheio de dívidas sociais. Dos líderes das igrejas - se é que igrejas sejam necessárias - espera-se que redespertem o homem para aquele entendimento. E o mais virá por acréscimo...
Questões sociais e discursos de ordem moral são coisas terrenas demais para a missão de um papa.


