Reflexões e conselhos a candidatos
Sempre é bom lembrar o que R. Bernhoeft escreveu recentemente (Tem de ser cidadão, revista Exame de 8 de março): De modo geral, os brasileiros estão exigindo, de si mesmos e de seus pares, coerência, ética, retidão. Há cada vez menos espaço para antagonismos entre o discurso e a prática, entre o comportamento que o indivíduo tem na vida pública e o que tem na vida privada. Na verdade, o que um cidadão deseja é que caia por terra o velho ditado italiano de que dinheiro público é como água benta: perto, todo mundo põe a mão.
As regras não foram inventadas, pois Drucker se espelha em atitudes de inúmeros presidentes que antecederam Clinton. Estes conselhos servem para outros executivos.
Primeira regra: O que precisa ser feito? Às vezes não é o que se gostaria de fazer, mesmo que tenha sido o foco de campanha. O que é necessário perceber e assimilar é qual problema que requer pronta solução. Na realidade, o poeta precisa ir onde o povo está, buscando saídas sociais que satisfaçam a comunidade.
Segunda regra: Concentrar-se, não se dispersar, não divagar. Usualmente, há uma dúzia de respostas à primeira regra, mas a prioridade do mandatário é focar em algo que realmente precisa ser feito ou conquistado. Se a escolha for do mandatário, deve ser importante o suficiente para fazer a diferença, se exitosa.
Terceira regra: Jamais aposte na certeza de uma decisão, pois pode falhar. Ponderar, precavendo-se, e não achar que está sempre certo. Tomar muito cuidado, pois o que é visto como seguro, pela sua ótica, pode vir a negar fogo. Não é querer legitimar todas as suas propostas ou fazer valer sempre seu ponto de vista. As percepções são diferentes. Porém, um dirigente reconhece que não há política livre de risco. Um conselho: jogue com os três sensos. Primeiro, o bom senso; se este não prevalece, vá pelo consenso. Só, em último caso, o dissenso (quem é seu advogado?).
Quarta regra: Um atuante e efetivo presidente não se detém no varejo. Deve cuidar do atacado, de problemas da comunidade, e não se perder em detalhes. Um efetivo mandatário deve dizer não quando tentado para problemas menores, mas deve estar seguro de que estão tomando cuidados deles, ou seja, deve ter uma equipe altamente disciplinada e cidadã que está tratando com grande responsabilidade destes problemas menores. Não deve se envolver ou gastar muito tempo com miudagens, mas deve ser mantido (sempre) bem informado. A omissão ou pouco caso, ou ainda, o deixa pra lá, pode fazer, mais adiante, um inesperado e contundente barulho. Vide exemplos recentes de Brasília, São Paulo e de inúmeras capitais e municípios.
Quinta regra: O presidente não tem amigos na administração. Esta era a máxima de Abrahan Lincoln. Levar amigos para a administração pode ser uma tentação ao abuso de sua posição e fazer valer um poder de dominação. É preciso ter bons e responsáveis assessores, escolhidos de acordo com suas capacidades, competências, mérito e atitudes diante das necessidades sociais da comunidade e respeito com o erário. Pena que as coligações, na ânsia de não perder, estabelecem parcerias oportunistas ou alianças duvidosas, nem sempre postulando a mesma cartilha social, e com isso impedindo a liberdade de escolha de competências responsáveis e afinadas aos projetos e demandas sociais.
Esta regra é muito importante, uma vez que a existência de assessores responsáveis, capazes e competentes, pode ser o arrimo para mandatários destreinados para a administração pública. Para especialistas em Direito Administrativo, é recomendável que os prefeitos estejam sempre cercados de boa assessoria na parte administrativa, alinhada com legislações e procedimentos, sobretudo na gestão financeira e orçamentária, nos contratos e licitações. Caso contrário, surgem irregularidades na prestação de contas ou desvios comprometedores de verbas, acusações de contratos irregulares, superfaturamento, contratações ilegais, CPIs, perda de mandato, prisões.
Nesta regra é bom lembrar W. Shakespeare (em O mercador de Veneza): Quando você perde dinheiro, você não perde nada; quando você perde a saúde, você perde alguma coisa; quando você perde o caráter, você perde tudo. Ademais, Daniel Piza lembra que a comunidade ideal não é aquela em que se possui a aprovação dos amigos, mas aquela em que se possui o respeito dos inimigos (oposição) e, principalmente, dos munícipes.
Um mandatário não pode frustrar as expectativas e demandas sociais do seu povo, devendo ser seu fiel servidor, repelindo o corporativismo e deixando claro sua opção cidadã. Caso contrário, gera a desconfiança e a desesperança na comunidade, estimulada à prática da desobediência cívica, já que o exemplo arrasta. E o cidadão comum, laborioso e honesto, desanimado, acaba concordando com os dizeres de Ruy Barbosa: ...de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
E a sexta regra? É o conselho que Harry Truman deu ao recém-eleito John F. Kennedy: Uma vez que está eleito, pare de fazer campanha. A partir da posse, o negócio é arregaçar as mangas e ir à luta, trabalhar, compartilhar e solucionar problemas de seu povo, solidário com a sua comunidade, e não ficar no gabinete ou palanque discursando, já que a próxima eleição está longe ainda. Se trabalhar, honesta e corretamente, compromissado com a sua comunidade, investindo fortemente nas áreas de educação, saúde, saneamento e sócio-ambiental, será lembrado no futuro. Caso contrário, concorde com a fala de Ronald Reagan: A política é como show business: você tem uma estréia fantástica, desliza por algum tempo e termina num inferno..
Aí estão as regras de um mestre para quem quer governar para o povo, com o povo. Sábios conselhos. Praticá-los, eis a questão.
- EVARISTO MARZABAL NEVES é professor universitário titular em Piracicaba
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