Os sábios não têm consciência de que são sábios. Eles apenas são. Assim como a flor não conhece a sua própria beleza. Ela apenas é. E se identificamos o sábio, é porque temos em nós a porção sábia. Se conseguimos nos encantar com a magia da flor, é porque existe em nós esse registro.
Se o poema nos toca fundamente, é porque se revela a parte do poeta que somos. Se percebemos a sutileza das formas de um objeto e de coisas que nos rodeiam, é porque estão se manifestando aí os componentes do nosso dom de artistas.
Se nos deslumbra o movimento das luzes e cores que vão se desenhando no horizonte a um pôr de sol, é porque essa obra de arte tem cópias iguais em nosso próprio ser, ou não as reconheceríamos. Se as águas serenas de um lago nos tranquilizam, é a tranquilidade guardada em nós que aflora, embora imaginamos não tê-la.
Se, diante do mar, somos tomados pela sensação de força e poder, é porque esses atributos já são da nossa natureza e estão se identificando com o que lhes é semelhante. Se nos comove a humildade de certas pessoas, é porque jaz em nós a medida desse valor.
Se a fragilidade de uma criança ou de um velhinho nos coloca num estado de redobrado cuidado, é porque é natural em nós essa tendência protetora, embora não nos apercebamos disso. Se nos lançamos, por inexplicável instinto, em perigosa missão salvadora em hora extrema, é porque somos dotados de vigorosa coragem que nem imaginávamos possuir.
Se a sublime harmonia de acordes musicais soa agradável aos nossos ouvidos e nos conduz a momentos de elevação, é porque a musicalidade é uma substância do nosso ser. Se nos sensibiliza a gentileza das pessoas, é porque temos em nós sensores idênticos, ou não conseguiríamos percebe-la, eis que não se identifica aquilo de que não se tem referência.
Se nos agrada o bom humor nos outros, é porque essa virtude encontra um semelhante em nós, embora muitas vezes adormecido. Se exaltamos os que têm esperanças, é porque há também em nós um punhado delas, ou não saberíamos o que isso significa.
Se admiramos nossos ídolos e heróis, é porque temos um pouco deles. Se apreciamos as boas pessoas, é porque temos a medida do que é ser uma boa pessoa, pois não se consegue medir aquilo cujas coordenadas se desconhece. Se nosso pensamento navega por entre estrelas e penetra na profundeza do cosmos, é porque temos a dimensão do universo e lá está nosso espírito.
*WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
-------------------------------------------------------------------------

mockup