Reflexão sobre a maturidade
Maria Lucia Victor Barbosa
Afirmou José Ortega y Gasset que ‘‘o indivíduo cuja vida carece de projeto, segue à deriva. Por isso nada constrói, embora suas possibilidades e seus poderes sejam enormes’’. Isso diz respeito ao ser humano nas várias etapas de sua vida, mas gostaria de situar a reflexão que este pensamento inspira naquele período outonal que acontece um pouco antes do inverno, quando então o ciclo de uma existência se fecha.
Neste tempo, quando por conta do inexorável processo biológico as funções orgânicas começam a declinar mais rapidamente, atinge-se a maturidade. Da flor chega-se ao fruto, que à medida que degenera deixa cair as sementes e depois retorna à terra para se retransformar através de novos ciclos. Quanto às sementes da experiência e da sabedoria, são repassadas a outros para que suceda novos processos de florescimento. Por isso, quantas vezes não nos surpreendemos a renovar atitudes, gestos e comportamentos daqueles que já nos deixaram, principalmente os que nos foram legados por nossos pais que, através do seu trabalho ou de sua profissão, ou mesmo de pequenos ensinamentos práticos ou de grandes idéias, ajudaram-nos a ser o que somos não só geneticamente mas em termos da formação do nosso caráter.
Justamente o espargir de sementes no sentido da continuidade das atividades profissionais ou culturais, quando interditado em determinadas sociedades ou épocas para pessoas situadas na faixa dos 60 anos em diante, deixa-as à deriva. Sem poder realizar seus projetos, elas são vistas como estorvos em vez de repositórios de experiência a ser transmitida. Assim, sugerem inutilidade e são aprisionadas no preconceito.
Coisificados na sua suposta imprestabilidade, os seres maduros costumam se aposentar do mundo. Eles jazem como se já estivessem mortos através do esquecimento, e subsistem vegetativamente apoiados apenas na contemplação íntima de suas recordações, de suas frustrações e de sua solidão. Não puderam compreender que o melhor de suas vidas estava por começar naquele outono, e nem fruir da paz do crepúsculo antes de mergulhar no sono que a noite eterna traz consigo. Faltou-lhes resgatar os espaços que só eles saberiam criar. E isso acontece em determinadas épocas ou sociedades, onde são negadas oportunidades para aqueles que já se encaminham para o ocaso de sua existência.
Neste ponto retornemos a Ortega y Gasset quando este filosofa sobre a masculinidade e a feminilidade, a juventude e a senectude, como pares de potências antagônicas: ‘‘Cada uma dessas potências representa estilos de vida diversos, e para se compreender bem cada época é preciso determinar-se a equação dinâmica que nela formam essas quatro potências, e perguntar-se: quem pode mais? O masculino ou o feminino? Os jovens ou os velhos, isto é, as pessoas maduras?’’
Segundo Ortega, é extremamente interessante acompanhar os deslocamentos de uma dessas potências para outra, no decorrer dos séculos. Então se percebe que a vida é rítmica, sendo os ritmos fundamentais os biológicos; isto é, há épocas em que predomina o masculino e outras o feminino; há tempos de jovens e tempos de velhos. Mas como afirma o filósofo espanhol, ‘‘se há história e antes de tudo, há história da mente, da alma, o interessante será descrever a projeção desses predomínios rítmicos na consciência’’.
Quer dizer, ‘‘a luta misteriosa que nas secretas oficinas do organismo travam a juventude e a senectude, a masculinidade e a feminilidade, reflete-se na consciência sob a forma de preferências e desdéns’’. Desse modo, em certas épocas aprecia-se mais os atributos femininos em comparação com os masculinos, e enaltece-se mais as qualidades da juventude em detrimento da vida madura.
Neste século ficou evidente o predomínio dos jovens para os quais o mercado se volta através de formas de consumo diversas, que vão da moda ao culto do corpo aperfeiçoado nas academias de ginástica. Entretanto, já no final do século XX o ritmo biológico começa a ostentar na sua cadência, mudanças que começaram a entrar em curso por conta de uma série de fatores que se entrelaçam como, por exemplo, os prodigiosos avanços da medicina que prolongam a vida aliados à queda da natalidade. O resultado é o envelhecimento da população em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde essa progressão é uma das mais velozes do Planeta e já contamos com aproximadamente 14 milhões de sexagenários.
Em decorrência disto, afirma o escritor Floro Freitas de Andrade (na monografia com a qual conquistou merecidamente um dos primeiros lugares ao participar do concurso promovido o ano passado pelo Banco Real para pessoas de 60 anos ou mais), ‘‘que se pode prever que o aumento de sexagenários produzirá fenômenos sociológicos relevantes, e o aumento do prestígio dos cabelos brancos acontecerá principalmente pelo impacto de seu potencial aquisitivo e interesses de mercado, além do peso político nos governos e na sociedade’’.
Contudo, num país como o nosso, de contrastes sociais acentuados, de assalariados mal pagos, imerso nas dificuldades causadas pelo desemprego que golpeia e frustra inclusive os mais jovens, de aposentados que de modo geral recebem quantias insignificantes depois de ter contribuído durante a vida inteira para os cofres governamentais (sendo que muitos continuam a contribuir), diria que somos uma nação cuja maioria não consegue acumular o suficiente para uma velhice tranquila e nem dispor dela de maneira desejável.
Acrescente-se a isso nossas estranhas idéias sobre a questão da idade. Afinal, costumamos chamar de ‘‘crianças’’ jovens de 20 e tantos anos, porém, depois dos 35 o indivíduo começa a ter dificuldades no sentido de acesso ao mercado de trabalho através de concursos ou mesmo de contratações, pois já está ‘‘velho’’. Para piorar, depois dos 40 a pessoa já é revistada com olhares inquisidores que procuram detectar alguma possível invalidez. E logo que alguém declara ter chegado aos 50, é classificado na tabela das idades com um termo politicamente correto mas detestável: terceira idade.
Essas coisas precisam mudar para que o País alcance a idade da razão. Na verdade, estão mudando lentamente no bojo das transformações trazidas pelos avanços científicos e pelas mudanças de padrões de comportamento. Entretanto, há muito que fazer no sentido de possibilitar às pessoas maduras a reinvenção de suas vidas. Retornarei mais adiante ao assunto.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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