Deus que eles acreditavam nunca desamparou ninguém. Jamais desampararia o próprio filho. Este era o pensamento unânime dos primeiros Cristãos. Todavia não foi assim aos que contemplavam com os próprios olhos, era impossível conceber. Seria uma alucinação, pesadelo ou miragem? Não, nenhuma dessas ilusões, o fato é real. O Filho de Deus estava mesmo crucificado. Assim, Jesus morreu para decepção de todos, pois esperavam-se ascender o trono de Davi em Jerusalém.
Seus seguidores não haviam compreendido a missão divina de seu Mestre. Eles acreditavam numa conquista terrena, quando o viram a caminho da prisão, apreensivos e desapontados. Esperavam, a qualquer momento, uma demonstração de poder de Jesus?
Eles eram testemunhos vivos dos milagres que o credenciava como enviado de Deus.
O Deus que eles acreditavam, sempre se faz presente nos momentos mais difíceis e jamais abandonou um de seus seguidores. Ainda que na última hora, as mãos poderosas e salvadoras de Deus estão prontas para salvar. Foi assim que surgiu um cordeiro e Isaque foi salvo do Holocausto; salvou Noé nos dias de dilúvio, a Ló na destruição de Sodoma e a Moisés quando acuado entre o mar vermelho e o exército do faraó. Fechou a boca dos leões famintos quando salvou a Daniel, salvou também o profeta Jonas quando já sem respiração no ventre do grande peixe. No momento em que o povo de Israel parecia sucumbir diante dos Filisteus, eis que surge o pequeno Davi derrotando Golias, e põe em fuga o poderoso exército. Deus esteve junto de Abraão, de Isaque e de Jacó; não abandonou. A Salomão, a Davi, a José, a Maria e muitos outros. Não podia agora abandonar seu próprio filho.
Os fiéis esperavam uma reação de Jesus no julgamento, pois não reagiu no momento da prisão; as esperanças se amiúdam e restringem-se ao caminho do gólgata, não houve reação também no julgamento. O caminho do suplício é concluído e o milagre não aconteceu. Resta ainda uma esperança, instantes antes da crucificação; e impassivamente, e a distância os amigos de Jesus esperavam o momento da explosão do poder. Uns, diziam: pode ser agora ao pé da cruz.
Os últimos momentos chegam, e já se ouvem as batidas do martelo. O filho de Deus, totalmente abatido, desde o dia anterior quando exclamou: ‘‘Meu Pai, se possível passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres’’ (Mat. 26;39).
Jesus não esboçou nenhuma reação, nem um gemido e nem um ai. Ele foi humilhado até a morte e, como um cordeiro, não abriu a sua boca. Silenciou-se a caminho do matadouro (Isaias 53:7). O Filho de Deus sem ajuda do Pai, não pode superar os limites da resistência humana, sua angústia, seu sofrimento e sua dor transpassaram e transcederam as forças terrenas. Desamparado também pelos homens, pois seus amigos fugiram, os discípulos se dispersaram e as mulheres que o amavam se colocaram a distância. Quem ficou mais próximo Dele o negou três vezes (Mat. 27:46). Jesus assumiu verdadeiramente, a natureza humana, sofreu morte humilhante, foi cuspido, blasfemado e vilipendiado.
Os espinhos da coroa perfuraram cruelmente sua frontes, e os pregos penetravam impiedosamente em seus pés e em suas mãos. Publicamente foi pendurado numa cruz de tortura. Uma lança ponteaguda transpassou seu lado perfurando seus rins e pulmões de onde correu água ao invés de sangue, visto que já estava esvaido.
A natureza fóbica, chorando e apreensiva, não podia contemplar o desmensurado ato de crueldade (Mar. 15:38). E o sol não podia também iluminar a face pálida, já sem sangue e sem vida do Filho de Deus (Mat. 25:45). Assim como a terra não ficaria impassível diante do maior acontecimento da história (Mat. 27:52).
Humilhado, desprezado e rejeitado pelos homens; assim Ele foi contado com os malfeitores. Na morte não foi digno de um velório, não se viam flores e no seu cortejo não houve pranto nem lamentações. Apenas um amigo transportou seu corpo quase sem vestes; não foi digno de uma mortalha, nem um caixão; foi colocado num túmulo emprestado e como escória da sociedade, se fez como um indigente; assim, o filho de Deus foi colocado num túmulo gelado entre as pedras.
Há milênio o profeta já havia escrito: ‘‘Não deixarás tua alma na sepultura, nem permitirás que teu santo veja a corrupção’’ (Sal. 16:10). Não seria possível que a terra pudesse reter o Filho de Deus.

mockup