A população paranaense assiste atualmente o desenrolar da mais dura e prolongada greve de suas universidades. Há mais de 70 dias, os funcionários e professores de Londrina, Maringá e Cascavel paralisaram suas atividades sem perspectiva de retorno para os próximos dias. Diante deste quadro, é normal que as inquietações se multipliquem gerando questões como a colocada pela professora Olívia Marcia Arantes, em artigo publicado na edição de terça-feira da Folha.
Buscando analisar a greve na UEL a docente parte de uma pergunta aparentemente simples: a quem interessa a greve na UEL? No esforço de responder ao problema colocado a professora recorre a uma salada de autores cujo único ponto de contato é o fato de pertencerem ao gênero humano e serem do sexo masculino. O resultado é que no leque que vai de Jurguen Habermas a Ivan Capelatto o que emerge do artigo da professora é a escolha de alguns culpados, entre os quais o sindicato dos professores e dos funcionários de Londrina.
Argumenta a professora Olívia que os sindicatos têm interesse na greve, apontando na sequência para a necessidade de serem encontradas novas formas de ação. É sobre este ponto que estabelecerei minhas considerações.
Seguramente, a greve afeta à população, sobretudo quando se trata de paralisação do setor público. Afeta muito mais quando o setor paralisado é o dos hospitais, como ocorre atualmente com o HU. No entanto, é necessário considerar que se isto ocorre é porque o Hospital Universitário acabou sendo o escoadouro para o descaso do governo estadual no que concerne à saúde pública. Basta ver em que condições operam o Hospital da Zona Norte ou da Zona Sul, este último sendo muito mais um grande posto de saúde.
A greve afeta a população, prejudica o comércio e quebra a rotina das atividades discentes e docentes. No entanto, ela é um recurso compulsório e não desejado. Qual professor em sã consciência vai preferir paralisar as atividades durante mais de 70 dias para ter de trabalhar posteriormente nos meses de janeiro e fevereiro, e seguramente dezembro, caso o movimento chegue a um desenlace ainda este mês ou no início do próximo. Se a greve está em curso é em consequência de que o governo do Estado do Paraná vem praticando a política de arrocho salarial dos tempos da ditadura militar. Promete e não cumpre, como bem deve saber a professora Olívia visto que em 2000 a greve na UEL foi encerrada com o compromisso do governo de que para 2001 haveria reajuste. Tática que agora o governo volta a utilizar anunciando que um reajuste para o funcionalismo somente seria possível em abril de 2002.
Importante observar, também, que o prolongamento da greve não decorre de interesses políticos do sindicato, que vem insistentemente tentando negociar com o governo a pauta de reivindicações, solicitando, inclusive, a intervenção da sociedade civil londrinense. No entanto, ainda que a greve não seja política, esta última não pode deixar de estar presente uma vez que o governo age de acordo com a cartilha do FMI e Banco Mundial. O mesmo governo que se recusa a repor as perdas salariais é o que concede isenções às montadoras, sucateia o patrimônio público, quer reduzir o desconto e prazo de pagamento do IPVA, abaixa a cabeça para as empreiteiras que se apropriaram das rodovias hoje pedagiadas, chantageia com a venda da COPEL e, depois de tudo isto, diz que o Estado está sem caixa. Consequentemente, não buscamos negociar com um governo qualquer mas sim com um poder público calcado em uma forma de política específica, a neoliberal.
A lei de Lerner é a lei de Fernando Henrique Cardoso em relação às universidade federais, que por sua vez é a lei do FMI e do Banco Mundial. Se tem alguém que prejudica a educação, neste sentido, não são os professores e funcionários parados e sim os governos estaduais e federal que se dizem preocupados com os alunos mas ao mesmo tempo descumprem a Constituição, o direito de greve, recuperam todos os argumentos do período militar e controlam a mídia a fim de que seja no ''Bom Dia Brasil'', seja no ''Bom Dia Paraná'', uma única parte da história seja contada. Diante de semelhantes posturas nos resta lutar com as armas que temos e, se diante de tudo que já viu a professora Olívia tem outra solução que o movimento grevista (recurso curiosamente utilizado mesmo nos países do capitalismo avançado), que apresente proposta concreta e, sobretudo, a encaminhe para avaliação junto ao movimento docente e ao comando de greve sem o que, mesmo com o apoio de autores renomados, todos os argumentos da docente não passam de palavras vazias ou, quando muito, ensaio de erudição.

ARIOVALDO DE OLIVEIRA SANTOS é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em Ciências Sociais pela Université Paris I (Sorbonne)

mockup