REFÉNS NA SALA DE AULA - AO MESTRE, SEM CARINHO
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2003
Phoenix Finardi<br> Reportagem local 
''...e acontece que os professores não mais ousam reprovar seus alunos e os adulam, de modo que estes zombam deles pretendendo ter os mesmos direitos e a mesma consideração dos mais velhos...''
A previsão, feita por Platão há 400 anos A.C. (leia o texto na íntegra nesta página), cabe na medida para os tempos atuais. O professor Rubens (nome fictício) foi ameaçado de morte porque mudou o horário da prova. A professora Silvia (nome fictício) foi ridicularizada porque chamou a atenção do aluno. Os ''mestres'' de antigamente estão sendo xingados e agredidos dentro das escolas. No novo modelo de educação uma coisa é certa: alunos e professores não são iguais. Em muitas salas de aula, quem manda mesmo são os alunos.
''Na minha escola, uma colega foi mordida por um aluno e ficou com um hematoma no braço. Uma outra quase foi atingida por uma mesa que um aluno jogou contra ela. Às vezes parece que os alunos esquecem que o professor é um ser humano. Dia desses fui conversar com um aluno que estava com problemas. Quanto mais eu falava, mais ele vinha com ironia. Eu disse que estava ali para tentar ajudá-lo e ele me respondeu que também estava me ajudando... 'estou te deixando sem voz, professora'. Ele disse isso e caiu na risada. Aquilo me doeu profundamente porque eu tenho um problema nas cordas vocais e os meus alunos sabem disso. Eu não chorei na frente dele pra ele não perceber que eu estava derrotada, mas foi assim que eu me senti'', conta Silvia.
A história de Rubens é mais violenta. ''Eu ia dar uma prova na terceira aula. Os alunos me pediram para deixar para a última aula, para que eles pudessem estudar mais um pouco e eu concordei. Um dos alunos, que tem 16 anos, ficou irritado e saiu da sala, sem permissão. A diretora trouxe ele de volta e então ele começou a me xingar, dizendo que eu não tinha vergonha, que não deixava ele em paz, que tinha vontade de quebrar minha cara de pau. Eu enfrentei, disse que ele não podia falar comigo daquela maneira e então ele me ameaçou de morte, na frente da sala toda. O caso foi parar na polícia.''
A professora Ana Silvia (nome fictício) define bem a violência enfrentada pelos professores. ''O mais leve é quando o aluno xinga a gente. Já colocaram percevejos na minha cadeira para eu sentar em cima, já colocaram cola e estraguei minha roupa... Essas coisas são detalhes. Uma vez eu me desentendi com um aluno porque ele não quis tirar o boné e naquela escola o regulamento não permitia boné em sala de aula. Ele saiu batendo a porta e depois voltou, sentou bem na minha frente e começou a me ameaçar dizendo que qualquer dia uma professora ia amanhecer com a boca cheia de formigas. Eu fingi que não estava escutando. No dia seguinte ele me cumprimentou normalmente, abriu a mão e me mostrou duas balas de revólver. 'Pega, professora, pra você ver como é pesada. Já pensou uma dessas acertando a cabeça de alguém?', ele disse. Eu mandei ele guardar aquilo, que não era material escolar. Mas fiquei com medo. Ele tinha 18 anos e eu me senti ameaçada de verdade. Achei melhor pedir transferência.''
São raros os depoimentos como os de Carolina (nome fictício), que também foi ameaçada mas conseguiu dominar e reverter a situação (leia o depoimento nesta página).
Por incrível que pareça, a Associação dos Professores do Paraná (APP), que representa mais de 5 mil profissionais, recebe poucas queixas de ameaças e maus tratos contra professores. ''Eles têm medo de ser identificados, de represálias, têm medo de perder o emprego'', justifica Luiz Martins de Lima, presidente da APP. Para ele, a denúncia não tem que partir do professor. ''A escola é que tem que tomar providências, chamar o Conselho Tutelar e a polícia, se for preciso'', afirma.
No entanto, ele reconhece que nem sempre isso funciona: ''A cada ano que passa fica mais difícil trabalhar em sala de aula. O professor está totalmente desprotegido. Os alunos retrucam, falam palavrões, desobedecem, ameaçam. A gente chama os pais, apela para o Conselho Tutelar e nem sempre consegue resolver a situação'', confessa Lima. A APP está negociando com o governo do Estado a diminuição do número de alunos nas salas de aula: ''Queremos um mínimo de 25 e um máximo de 35 alunos. Temos turmas com 50, é inviável controlar uma sala desse tamanho'', pondera.
Outra reivindicação da entidade é tratamento psicológico para os professores. O Instituto de Previdência do Estado não garante essa cobertura.


