Reféns
ANTONIO DELFIM NETTO
Reféns
Escrevendo em dezembro do ano passado sobre o fraco desempenho de nossas exportações, comentei que a economia brasileira estava se tornando uma espécie de refém do mercado financeiro internacional. Na ocasião, o déficit verificado nas transações comerciais do Brasil com o resto do mundo não era tão elevado, mas seu potencial de crescimento era bem visível. Parecia evidente que a perda de dinamismo nas exportações brasileiras e o crescente vigor das importações nos estavam conduzindo a uma situação de alto risco: a persistência de uma taxa de câmbio sobrevalorizada iria expandir o déficit e limitar cada vez mais os graus de liberdade na condução da política econômica. A preocupação era que o governo deixasse passar a oportunidade de corrigir os rumos da política de câmbio enquanto os mercados financeiros viviam um período de calmaria.
Nossas autoridades econômicas reagiram de maneira não muito elegante àquele comentário, preferindo apenas desqualificar o argumento, sem discutir o problema. Passou a oportunidade, o mercado que estava calmo se tornou nervoso e um certo nervosismo já se apossou da equipe econômica, notadamente do grupo fundamentalista do Banco Central. A confissão explícita do constrangimento externo nos foi proporcionada no depoimento do diretor de política monetária do Banco Central perante a Comissão de Economia da Câmara dos Deputados, na semana passada. Eis o que disse o diretor, conforme relatado pelo jornalista Ivanir Bortot, na Gazeta Mercantil: A redução do juro atualmente, mesmo com a queda da inflação, é difícil por causa dos riscos que ainda (sic) existem devido à redução do fluxo de ingresso de capital provocado pela crise asiática. A rentabilidade líquida do cupom cambial é da ordem de 8,5% ao ano. Se os juros caíssem na atual conjuntura de desvalorização cambial, um impacto seria notado sobre a rentabilidade do cupom. A alternativa para reduzir os juros seria diminuir o ritmo de desvalorização do real, mas, aí, os exportadores pressionariam o governo e seria possível causar algum efeito sobre a balança comercial.
A questão que tentávamos discutir há oito meses era exatamente esta e se centrava no constrangimento externo que estávamos construindo, com graves riscos e enormes custos em termos de bem-estar para o povo brasileiro. Hoje, o risco aumentou enormemente e nos aprisionou na armadilha que impede o crescimento da economia e eterniza altos níveis de desemprego. A redução da oferta de emprego já esteriliza os ganhos que a estabilidade da moeda proporcionou aos assalariados. Inverte-se a curva que apontava para uma melhoria na distribuição da renda e voltamos à perversa distribuição que penaliza cruelmente as camadas mais pobres e empobrece a classe média.
Com a recusa em corrigir o câmbio, o déficit comercial cresceu, arrastando o crescimento do déficit em conta corrente para 35 bilhões de dólares este ano, algo como 5% do PIB. Como confessa candidamente o diretor do BC, aumentou a vulnerabilidade. Agora, não dá para mexer. Não pode mexer no câmbio e muito menos nos juros generosos que oferecemos aos aplicadores externos, porque se eles não tiverem a remuneração a que se acostumaram, eles nos abandonam...
Até algum tempo atrás o governo nos dizia que tinha feito uma aposta na estabilidade (e...na boa vontade) do mercado financeiro internacional. Na realidade, essa é uma aposta contra o bem-estar do povo brasileiro. É ele, o verdadeiro refém...
- ANTÔNIO DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, é deputado federal (PPB-SP)





