Os dois mais ilustres depoentes que até aqui participaram dos trabalhos da comissão de reeleição, Paulo Maluf e Ciro Gomes, sustentaram, entre muitas divergências, um ponto de vista comum: a reeleição não é (embora esteja sendo) prioridade nacional e está atropelando numerosos outros itens fundamentais da agenda política do país.
É também, em síntese, o pensamento do cardeal-arcebispo de São Paulo, Evaristo Arns. O presidente Fernando Henrique, abordado a respeito durante sua viagem à África, não divergiu de seus críticos, e saiu-se com esta: ‘‘Não estou preocupado com a reeleição’’. (Não??!!)
E mais: ‘‘A imprensa só fala em reeleição e é preciso tratar das reformas constitucionais’’. O detalhe, porém, é que a inversão de temas na agenda política foi operada única e exclusivamente pelo governo. Não foram seus adversários que inventaram a reeleição, embora a condução do processo, até aqui, faça muitas vezes supor que há quintas-colunas nas fileiras parlamentares do governo.
O vice-presidente Marco Maciel, político experiente e talentoso - e que sabe cultivar o silêncio como poucos -, já teve a oportunidade de dar seu recado crítico com a discrição que lhe é peculiar. Segundo ele, a reforma política - e dentro dela a reeleição - deveria ter sido proposta logo no início do governo, quando o Congresso costuma conceder tudo o que o presidente recém-eleito lhe solicita.
Se não negou sequer o confisco de poupanças e contas correntes a Collor, por que o Congresso negaria a Fernando Henrique, com uma biografia bem mais consistente e uma performance eleitoral superior, a reforma política? Não é só: inserida no bojo da reforma política, a reeleição não pareceria um casuísmo, como agora. O presidente, no entanto, não viu esse filme. Viu outro: colocou coisas como desestatização da navegação de cabotagem ou quebra do monopólio do setor elétrico na frente. Essas propostas poderiam - e seguramente seriam - aprovadas mais na frente. Não dependiam do prestígio político de um presidente zero quilômetro. Perdeu-se, porém, esse timing - e não adianta mais chorar o leite derramado.
Posta em debate no meio do mandato, a reeleição inevitavelmente tornar-se-ia, como de fato tornou-se, um samba de uma nota só. E é simples entender: se a idéia for rejeitada pelo Congresso, o governo acaba. Continua a existir como mera figuração protocolar, mas sem força política. O ‘‘não’’ do Congresso equivalerá a um voto de desconfiança, como nos regimes parlamentaristas.
O ‘‘sim’’ preserva o prestígio do governo, mas não evita outro efeito colateral: a precipitação do processo sucessório. O governo, goste ou não o presidente, tornou-se refém da causa, cujo debate é chatíssimo, mas, em função de tudo isso, absolutamente inevitável.

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