Refazer a paz com a vida - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de fevereiro de 1998
Walmor Maccarini 
Hoje começa o ano novo brasileiro. Janeiro das férias se foi, fevereiro do nada fazer também, acabou-se o carnaval, já sabemos quais são as escolas de samba campeãs. Concluiu-se o luminoso ciclo de hibernação que em nosso calendário vigora de 1º de dezembro até o despertar da ressaca do derradeiro folião carnavalesco. Pronto, agora já podemos retornar à rotina.
Mas neste 98 vamos fazer diferente. Começar por refazer a paz com a vida. Ver se conseguimos praticar o maior número possível de boas ações. Sem buscar vê-las. Ir fazendo e esquecendo. Senão podemos nos julgar credores. Experimentar, nem que seja só em 98, competir menos e compartilhar mais. Até com o nosso suposto concorrente. Ele é nós no outro lado.
Não precisamos ser heróis nem super-homens, nem provar nada a ninguém e muito menos a nós mesmos. Vamos estabelecer metas ousadas mas não estribadas no egoísmo da pura competição. Mentalizar serenamente o que queremos e deixar a vida fluir. Porque devagar se chega mais rápido.
Lembrar que somos os senhores de nossas decisões, e que se alguém nos subjuga é porque, no mais das vezes, temos permitido. Ao invés da permissividade cega, a harmonia. Porque pode haver harmonia entre discordantes.
Vamos abandonar o hábito de viver fazendo avaliações críticas acerca de este e aquele; parar com este vício de estar sempre controlando pessoas. Não podemos consertar os outros se não começamos por nos consertar primeiro.
Neste 98 que hoje se inicia vamos fazer a vida leve!
Se vivemos em conflito não vamos enxergar as belezas do viver, e que são tantas. Vamos ficar atentos à vida, mas deixar que ela flua. Vigilantes mas serenos. Desarmar aquele nosso eu racional, fazer menos julgamentos analíticos e dar lugar à intuição, que tem tanta coisa a nos revelar. Temos em nós um eu mais sábio, mas o mantemos desconectado, na busca da razão e da lógica. Nos lembrarmos sempre de que nós, só por nós, não fazemos nada, mas é Deus quem faz através de nós toda a obra. Nós só temos que facilitar-lhe essa tarefa, ajudá-lo. Firmar com ele uma parceria. Então, a primeira coisa que temos a fazer a cada início de empreitada é nos sintonizarmos com Ele, colocando nosso eu superior em ação. Isto de entregar nas mãos de Deus não funciona. É fugir da raia. Nós temos, sim, é que pegar na mão dEle. Assumir com Ele um compromisso. Fazer dEle um sócio. Mas que seja de sentimento e não só de boca. Nada de desconfiar que Ele possa a qualquer momento abandonar a sociedade. Ele não o fará se o mantivermos seguro conosco. E ao nos levantarmos de manhã, chamá-lo firmemente, convictos: Vamos lá, sócio!
Este ano de 98 não será um ano bom porque conste em algum decreto, mas porque nós o faremos bom. Nem que seja só por birra, vamos evitar falar de crise, de que as coisas vão mal, mas reverter esse quadro e começar a acreditar que as coisas vão bem. Gasta a mesma energia. Pôr na cabeça que podemos, que nossas dívidas são administráveis, que o ciclo dos bons negócios vai recomeçar hoje. A mente humana opera em cadeia, é contagiante, e se começarmos a nos mudar o mundo mudará. Porque, como seres divinos, somos integrais, estamos inteiros. Nada dilacera nossa essência. Vamos lembrar do nosso sócio, Aquele! Com nossa integridade intacta e um sócio destes, quem nos segura?!
Toda a natureza que nos rodeia é harmônica, só nós às vezes teimamos em viver na desarmonia. Justamente nós que somos os seres inteligentes da Criação. Se queremos assim, tudo bem, não é pecado, ninguém nos cobrará, nem o sócio, porque somos donos do livre ser e do livre pensar. Mas é uma perda de tempo e de energia, um desperdício.
Neste ano brasileiro de nove meses, que hoje começa, vamos viver mais o amor e menos o medo. O amor é o nosso componente iluminado, que habita nosso eu superior. O medo é a nossa parte sombria, que faz morada no nosso eu menor. Amor não é aquela coisa, às vezes mecânica, de ficarmos dizendo eu te amo, mas um estado de plenitude que nos leva, espontaneamente, a amar as pessoas e todas as coisas. Amor é um sereno e imperceptível estado de paz. Já o medo é a manifestação de nossos egos, o nosso lado obscuro, o nosso eu instintivo, muito teimoso. Não temos que desprezá-lo, mas trazê-lo à tona, reconhecê-lo, nos reconciliarmos com ele, e o veremos diluir-se.
Perdoar sempre, pedir perdão, perdoar a nós mesmos. O estado de não-perdão emperra tudo. É como uma roda encalacrada. Na parte emperrada de nossas vidas sempre está presente, soberana, a figura de um não-perdão. Perdoar e pedir perdão é o movimento mais difícil para nós, porque fere nosso ego, mas é o mais valioso atributo de nossa porção divina. Preferimos entrar pelos caminhos da ira, da teimosia, da intransigência, hesitando em entrar por aquele. Que é uma porta estreita, mas depois que a transpomos vemos o espaço ir se fazendo largo e suave.
Neste 98 vamos nos sintonizar com as qualidades mais profundas do nosso ser, trazê-las à tona e permitir que operem a nosso serviço.
Nos lembrar que temos um sócio, e que sócio! Aquele! Então não temos nada a temer.


