Refabulação do silêncio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de agosto de 2002
José Fiori 
A idéia de silêncio se encontra arquivada em expressões que não perderam de todo a sua natureza de figura, ou ainda mais ou menos cristalizadas em forma de provérbios, como ''silêncio mortal'', ''o silêncio da lei'', ''guardar silêncio'', ''romper o silêncio'', ''a palavra é prata, o silêncio é ouro'', ''em boca fechada não entra mosquito'', lembrando-se que no Eclesiastes se lê que ''há tempo de falar e tempo de calar''.
O culto do silêncio fez parte do ritual iniciático dos pitagóricos, que só recebiam na sua sociedade os indivíduos que houvessem passado pela prova do silêncio: ficar dois a cinco anos sem dizer nada. Na mitologia latina, o silêncio é uma divindade alegórica, representada na figura de um jovem com o dedo sobre a boca. E se chamava Harpócrates, um dos Lares. A harmonia do lar era alcançada pelo justo equilíbrio entre a fala e o silêncio.
A Bíblia registra o emprego do silêncio para exprimir diferentes atitudes. Por exemplo, quando o salmista (Salmos 39,2) diz ''Emudeci em silêncio, calei acerca do bem, e a minha dor se agravou'', está claramente atribuindo ao silêncio o sentido de calar, de emudecer, mas de propósito, tanto que a consequência moral é o agravamento da dor. Mateus diz que Jesus guardou silêncio quando uma das testemunhas declarou tê-lo ouvido dizer que destruiria o Templo de Deus e o reedificaria em três dias. Na primeira epístola de Paulo a Timóteo, o silêncio está ligado à idéia de submissão, como em 2,11: ''A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão'', pois a mulher, na opinião do redator da epístola, não pode ensinar nem exercer autoridade sobre o marido... E no Apocalipse (8,1) o silêncio tem muito de retórica, é puro suspense para o discurso final: ''Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora''.
Existe o silêncio dos governos, da imprensa e dos bem-pensantes. Ler é fazer falar os silêncios da linguagem. No espaço em branco do jornal lê-se a marca da censura. No espaço escrito do texto, lê-se nas entrelinhas, inteligentemente, o signo da liberdade criadora.
Em seu romance ''O resto é silêncio'', Érico Veríssimo coloca o leitor num processo consciente de recriação ou de co-produção literária. Sua linguagem abre-se para outro nível de silêncio - o do leitor, na refabulação agora de sua leitura.
Para Alceu Amoroso Lima, conforme lembra Gilberto Mendonça Teles, em Teoria e prática do texto literário, ''À medida que o homem passa da vida sensual à vida intelectual, tudo nele tende à expressão verbal. Mas à medida que o homem vai adiante, e a sua vida poética e, ainda acima, a sua vida mística, tendem a ultrapassar a sua vida conceptual - tudo no homem tende então à manifestação do silêncio''. Segundo Amoroso Lima, o silêncio deixa de ser um vazio, uma privação, um estado de pobreza anterior ao surto enriquecedor e iluminado da inteligência, para ser um estado de perfeição, de superação, de plenitude, em suma, que aproxima a natureza humana da natureza angélica. E leva o homem à vida contemplativa, à vida que anuncia o estado perfeito de graça e glória, que é visão e não mais palavra. E o estado de união com Deus, o estado que leva o homem, mesmo ainda em sua condição terrena, a aproximar-se do estado perfeito da vida fixada na eternidade''. Para ele, a palavra é o laço de união entre dois silêncios: ''É o intermezzo dos silêncios''.
Num artigo publicado no JB, em 12.01.79, intitulado ''Direito ao silêncio'' (citado por Gilberto Mendonça Teles), Tristão de Athayde comenta uma entrevista de D. Ivo Lorscheiter, na qual o secretário-geral da CNBB declara que ''Se defendemos a beleza da comunicação social, como um meio de evangelização, também defendemos o direito das pessoas à incomunicação... temos também o direito ao silêncio, para que posteriormente as palavras sejam de conteúdo e possamos nos comunicar melhor''. E nos diz que ''O silêncio apura em nós a acuidade dos sentidos e da inteligência'' e que ''Deus fala pelas coisas, quando nos cercamos de silêncio''.
Assim, numa sociedade como a nossa, de poluições e decibéis, a preocupação com o silêncio (as ''Zonas de Silêncio'' nas placas desrespeitadas do trânsito) pode assumir caráter de obsessão e de religiosidade.
JOSÉ FIORI é jornalista em Curitiba


