É motivador ver como os cidadãos se sentem em reencontro com sua cidade, nesta virada política indicada pelos resultados da eleição municipal no primeiro turno. Ao contrário daquela idéia que, em algum momento da história, parecia incorporada para todo o sempre, de que em Curitiba imperava um consenso social em torno ao projeto de cidade vinculado ao lernerismo, muitos cidadãos mostraram acreditar na possibilidade de construir outros cenários de futuro, um projeto alternativo para a cidade, para a sua cidade.
O governo municipal e a mídia procuraram, por muitos anos, mostrar o consenso como saudável, civilizado, resultado de um trabalho técnico de planejamento urbano que parecia beneficiar a todos e transformar a cidade em ‘‘capital de Primeiro Mundo’’. Entretanto, este aparente consenso era uma máscara para encobrir os verdadeiros beneficiados deste projeto de cidade, aqueles que de fato sempre influenciaram as decisões das políticas urbanas: as elites econômicas locais, as de sempre, e os grupos econômicos de capital internacional, com interesses localizados na cidade-metrópole, que obrigam a uma inserção subordinada aos imperativos das empresas globalizadas.
De fato, como a face visível de uma coalizão de interesses das elites empresariais e políticas, estava a tecnocracia, um forte mito cristalizado nas gestões lerneristas. Transmitiu a idéia de que havia um quadro de técnicos planejadores, em cargos chave do poder que, por situar-se acima dos interesses empresariais e dos partidos políticos, tinha as condições de definir os destinos da cidade. Quando organizações da sociedade civil, lideranças comunitárias ou pensadores das questões urbanas ousavam questionar o projeto, eram tratados como personagens que não tinham amor por sua cidade. Construiu-se a representação de equivalência: gostar da cidade era aderir ao projeto lernerista, era aninhar-se nos braços afáveis do senso comum, do consenso, era responder adequadamente ao uso dos novos espaços ou obras oferecidos, como presentes, aos cidadãos.
Mas, todos sabemos, ser cidadãos é muito mais que ser consumidores da cidade. Parece que os cidadãos descobriram, através de sua experiência, que de fato viviam sob uma produção planejada do consenso, sob uma imagem espetacularizada de cidade que escondia diferenças, sufocava o conflito e os desejos de mudança. Ora, a superação da passividade e o reconhecimento do conflito é saudável para a construção da cidadania plena. Criar condições para a emergência das diferenças e abrir espaços para o exercício democrático da política são certamente caminhos nos quais vale a pena apostar, está aí o amplo reconhecimento popular para governos municipais que adotaram esta orientação e esta prática política em muitas cidades brasileiras.
‘‘Pedimos, por favor, não achem natural o que muito se repete!’’, dizia Brecht em ‘‘A exceção e a regra’’. Uma cidadania que parecia silenciada por um padrão midiático insistente em alguns velhos clichês associados à ‘‘cidade-modelo’’, surpreende e anima ao mostrar, através do voto, que há na cidade energias utópicas para repensar a realidade urbano-metropolitana e reorientar as políticas urbanas em torno de um novo projeto, voltado para a igualdade, a justiça social e a efetiva qualidade de vida. Pois é precisamente através da técnica, com nova orientação política, que podem ser evidenciados os limites técnicos de um urbanismo já ultrapassado do ponto de vista social, ambiental e econômico.
Ser cidadão é muito mais que nos sentirmos figurantes de um grande anúncio de griffe urbanística, como em alguns momentos nos sentimos em nossa própria cidade. Exercitar a cidadania é transformar as reivindicações coletivas em projetos técnicos consistentes. Questionar o consenso, ao contrário de desamor, revela a vontade de nos reencontrarmos com a cidade, manifestada agora por muitos cidadãos.
A idéia de ‘‘pólis versus city’’ parece uma boa síntese do momento que vivemos e das idéias em confronto, dentro da própria cidade. A city é a cidade dos negócios, mercantilizada, transformada em produto, para oferecer condições vantajosas aos grandes investidores e para estimular um consumo passivo por parte dos cidadãos-consumidores. É a cidade administrada como uma empresa, fortemente apoiada em estratégias de marketing. Há fronteiras simbólicas e barreiras políticas que nos separam desta cidade, aonde não se pode entrar se não for para fazer negócios. Porém, em claro contraponto à city emerge a idéia de pólis, o reencontro da cidade como espaço da política, do exercício da democracia, da valorização das organizações da sociedade civil, do compromisso do governo urbano com a universalização dos benefícios da urbanização.
Se de novo há entusiasmo nas ruas, com a expressiva votação de Ângelo Vanhoni e com a vontade política de união das oposições em torno à sua candidatura para o segundo turno, é porque os cidadãos semeiam o vento da mudança.
- FERNANDA SÁNCHEZ é arquiteta e mestre em Planejamento Urbano em Curitiba, e autora do livro ‘‘Cidade Espetáculo: Política, Planejamento e City Marketing’’

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