O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ontem um corte adicional de R$ 10 bilhões no orçamento de 2010. Segundo Mantega, com o corte inicial já feito, de R$ 21,8 bilhões, a redução total corresponde a 1% do Produto Interno Bruto (PIB).
  Há um jogo de cena nessa história de cortar orçamento para conter o crescimento econômico. Em primeiro lugar, a explicação do ministro quer passar a ideia que o Brasil cresceu tanto que, agora, tem que desacelerar para evitar inflação. O Brasil teria que crescer muito mais para gerar empregos e divisas. A taxa de crescimento dos últimos anos foi tímida e apenas atendeu ao cres-cimento vegetativo.
  O corte orçamentário nesta altura do calendário pode ser inócuo. Se o Brasil tivesse realizado a reforma fiscal (que vem sendo adiada desde o governo FHC), não haveria necessidade de reduzir o crescimento para conter efeitos inflacionários como demanda de bens sem o correspondente aumento da produção.
  Não adianta cortar investimentos, talvez prejudicando a saúde pública, a educação e alguns programas sociais - embora o ministro garanta que o social não será afetado. O governo tem que cortar custeios da máquina administrativa, começando pela propaganda, viagens etc.
  Além disso, o corte, segundo especialistas, como o consultor Raul Velloso, ouvido pela Agência Estado, ‘‘não será suficiente para reduzir o aquecimento da demanda agregada e não vai levar o Copom a diminuir a intensidade do aperto monetário para este ano, que começou em abril com a elevação da taxa Selic.
  Há tam­bém os que con­si­de­ram di­fí­cil ima­gi­nar que no se­gun­do se­mes­tre, quan­do ocor­rem elei­ções, os cor­tes fe­de­rais pas­sa­rão a vi­go­rar. E mes­mo que o cor­te do or­ça­men­to fun­cio­ne, já vem atra­sa­do, ­pois de­ve­ria ter si­do fei­to há vá­rios me­ses pa­ra con­ter o vi­gor do con­su­mo. E o governo ainda corre o risco de, mesmo cortando o orçamento, ver os índices inflacionários reagirem. Outro risco é o aumento da taxa de desemprego já manifestada com a iminente redução da produção industrial.

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