Volta e meia o Brasil se vê envolvido em debates que soam modernos, bem-intencionados e populares, mas que ignoram um ponto básico: a nossa realidade. O mais recente deles é a proposta de redução da jornada semanal de trabalho para 36 horas. À primeira vista, a ideia parece uma conquista civilizatória. Na prática, porém, é mais um exemplo de como gostamos de discutir o topo da pirâmide sem antes construir a base.

Faço questão de deixar algo claro desde o início. Não há aqui qualquer posição contrária ao trabalhador. Ao longo da minha trajetória, sempre defendi melhores condições de trabalho, segurança, conforto, capacitação e oportunidades reais de crescimento profissional. Valorizar o trabalhador é essencial. O problema começa quando confundimos valorização com ilusão.

O Brasil ainda é um país em desenvolvimento. Dói admitir, mas é verdade. Nossa produtividade é baixa — muito baixa — quando comparada à de países desenvolvidos. E isso não é culpa exclusiva do trabalhador. Temos gargalos históricos na educação, na qualificação profissional, na gestão, na infraestrutura e até na nossa cultura, que muitas vezes relativiza compromisso, prazo e eficiência.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que produzimos pouco, enfrentamos falta de mão de obra em diversos setores. Parte desse problema é consequência de políticas públicas mal planejadas, que cuidaram da entrada, mas esqueceram da saída nos projetos sociais

Quando defensores da redução da jornada citam países como Islândia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda ou França, ignoram um detalhe fundamental: esses países só chegaram a jornadas menores depois de atingirem altíssimos níveis de produtividade. Além disso, em nenhum deles a regra foi imposta de forma rígida por lei nacional. O que existe, em geral, é liberdade para que empresas e trabalhadores negociem modelos distintos, de acordo com a realidade de cada setor.

Aqui, insistimos no caminho inverso. Queremos resolver tudo por decreto, como se uma lei fosse capaz de criar riqueza, eficiência e competitividade. Se isso funcionasse, o Brasil já seria rico há décadas.

A verdade é simples e dura: talvez apenas 10% das empresas brasileiras consigam absorver uma redução de jornada sem impactos relevantes. A imensa maioria — algo em torno de 90% — não consegue. Para essas empresas, a conta não fecha. O resultado tende a ser aumento de custos, perda de competitividade e repasse de preços ao consumidor final. No fim das contas, o próprio “beneficiário” da medida acabará pagando mais caro por tudo.

Pense, por exemplo, na construção de uma casa. Menos horas trabalhadas, com o mesmo salário, significam mão de obra mais cara. O trabalhador passa a trabalhar menos, mas paga mais pelo imóvel. Onde está o ganho real?

Há ainda um efeito pouco discutido: a aceleração da automação. Quanto mais caro e rígido o trabalho humano se torna, maior é o incentivo para substituí-lo por máquinas e robôs. E aí, sim, empregos desaparecem.

Em muitos países desenvolvidos, prevalece a liberdade de negociação. Nos Estados Unidos, por exemplo, a jornada padrão é de 40 horas semanais, mas em muitos setores chega a 60 horas, com férias negociadas diretamente entre empregado e empregador, sem imposição estatal.

Costuma-se dizer que trabalhar muito é coisa do passado. Discordo. Trabalhar não mata ninguém. O que mata é a improdutividade, o populismo e a recusa em encarar a realidade. Países ricos não ficaram ricos reduzindo esforço antes de gerar riqueza. Fizeram exatamente o contrário.

Está na hora de menos devaneio e mais responsabilidade. O Brasil precisa parar de brincar de país desenvolvido e começar, de fato, a construir o caminho até lá.

Ary Sudan, empresário

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