Existem pessoas, ainda que sejam amigas, são também sistemáticas. Elas se colocam numa posição irredutível em relação a suas convicções. Não se importam em saber se o comportamento foi adquirido num modelo de ensino persuasivo, ou se veio de um momento que se caracterizou pela emoção. Não demonstram nenhuma preocupação com o dogmatismo e não discutem a metodologia ministrada no aprendizado. Orgulhosas e oponentes, centralizam em si as atenções.
São pessoas inflexíveis que não abrem mão de seus conceitos e das lições de seus ancestrais. Se nossos pais, dizem elas, acreditaram piamente nesses princípios, e assim foram felizes até o fim, nós também não faremos diferente. Quando se mostra a essas pessoas que o melhor seria ouvir e aceitar novas experiências, elas permanecem irredutíveis, não percebendo a voz da razão a ditar-lhes que, quando os pais erram, os filhos não devem segui-los.
Se no passado adquiriram conhecimentos ou conceitos não condizentes com a verdade, é porque a verdade é um parâmetro de dimensionamento com o qual se pode mensurar comportamentos. Todavia, não querendo se reconciliar, envolveram-se em simulações, menosprezando o fato novo ora espelhado numa real dimensão. Se ainda colocarem empecilhos, afirmando que os costumes, apesar de duvidosos, solidificaram na intelectualidade humana e, por causa disso, tornaram-se ditames da consciência. Agora, não há como abandoná-los.
Mesmo na incerteza, essas pessoas tornaram-se complacentes com seus hábitos. Então simulam o paralogismo, ignorando a concepção de novos conceitos. Para exemplificar isto, nada melhor do que o comportamento cristão da atualidade, onde se ensina a imortalidade da alma, quando o fundador do cristianismo, Jesus Cristo, ensinou que a vida do morto só será restituída na vivificação do corpo na ressurreição.
Ainda que esta proposição original seja a única maneira de reviver, a promessa foi quebrada, porque o cristão, com raras exceções, tornou-se em discípulo divergente, pois essa imortalidade espiritual que ensina foi vitalizada numa miscelânea greco-romana, num período de obscurantismo religioso da Idade Média.
Outro fato semelhante, de menor importância, acontece com um grupo de brasileiros que aprenderam, não se sabe como, que aquela estrela solitária localizada na parte superior da faixa Ordem e Progresso, na Bandeira Brasileira, significa o Distrito Federal. Quando lhes explicam que aquele astro luminoso simboliza, na verdade, o Estado do Pará, repelem este ensinamento. Concebendo ou não a correta simbologia da estrela, se quiserem segui-la deverão caminhar rumo a Belém do Pará e não a Brasília. Como se vê, não se aceitando a verdade, dificulta-se o caminho.
Num tempo que já vai longe, um homem condenado e um governador dialogaram sobre dois importantes temas: a verdade e o poder. O governador questionou, dizendo: ‘‘És tu rei dos Judeus?’’. ‘‘Tu o dizes que sou rei’’, respondeu. Este modo de dizer, era na época, uma maneira audaciosa de confirmação. ‘‘Para isto vim ao mundo – continuou – para dar testemunho da verdade, todo aquele que é da verdade, ouve minha voz.’’ Titubeando e temeroso, gaguejou o governador ao indagar: ‘‘Que é verdade?’’
A verdade é o reflexo do caráter divino na personalidade humana; é um modelo de referência universal que representa a descrição fiel de um fato real. Dizem que a verdade é uma espada cortante, que fere o homem no seu âmago. Por causa disso, muitos preferem a mentira. É dever se instruir de que não se pode acobertar a verdade. Quem a teme, lava as mãos diante do inocente, como fez Pilatos diante de Jesus. Este gesto de omissão pertence aos fracos indecisos. Eles nunca terão êxito.
Há ainda um outro conceito universal, restrito ao campo religioso, que se contrapõe ao bom senso. É a excessiva valorização da vida humana. Na ótica da fé, vê se que tudo aqui é efêmero; a vida na terra é insignificante; é uma contagem regressiva. A certeza num futuro próximo é mesmo a morte. Por que então valorizá-la tanto? Há pessoas milionários que gastam toda sua fortuna para prolongar a vida apenas alguns meses e, por estranho que pareça, pouco ou nada se preocupam com a vida eterna.
Valorizar o efêmero, em menosprezo ao eterno, é como abraçar a escória e repelir o ouro; tornar-se omisso ou desacreditar de um fato novo é falsear os próprios passos; é permanecer inerte, na inconsistência; é fixar a miragem, em vez de objetivo. Esperar a salvação num ser imaginário, sem corpo, é eterizar o futuro. Porque Cristo, o Mestre, morreu e ressuscitou para ser nosso exemplo. Ou o cristão ressuscita, ou se perderão para a eternidade, segundo o apóstolo Paulo.
- NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina

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