Recordações do aniversariante Brasil

Maria Lucia Victor Barbosa
Quando Cristóvão Colombo chegou em 1942 às ‘‘Índias’’, ou seja, ao continente americano, acontecimentos estonteantes ocorreram não só para aquelas gentes incógnitas e remotas do Novo Mundo, como para os europeus.
Já no ano seguinte do espetacular ocorrido, precisamente em 4 de maio de 1493, a Igreja dava demonstração da magnitude do seu poder através da bula papal Intercoetera, expedida pelo papa Alexandre VI. Nesse documento eclesiástico, onde a cruz e a espada se entrelaçavam, ficava determinado que todas as terras descobertas ou por descobrir, situadas para lá de um meridiano traçado 100 léguas a oeste das ilhas de Açores e Cabo Verde, pertenceriam exclusivamente à Espanha para exploração e cristianização de seus habitantes.
Essa trama espanhola – o papa Alexandre VI, recorde-se, era o espanhol Rodrigo Borgia – desagradou e preocupou profundamente a monarquia portuguesa, que já se lançara na era do expansionismo e tinha também como projeto atingir as ‘‘Índias’’.
Os ânimos lusitanos só sossegaram quando, depois de muitos expedientes diplomáticos e militares, foi assinado em junho de 1494 o Tratado de Tordesilhas, que alterava de 100 para 370 léguas os limites do meridiano. Isso dava aos portugueses o domínio leste das novas terras descobertas ou por descobrir e minimizava a concorrência com a Espanha.
Na volta de Vasco da Gama – que atingiu Calicute na Índia em 1498, perfazendo a rota de Bartolomeu Dias – planejou-se outra expedição a fim de obter mais glórias portuguesas e, em especial, mais lucros comerciais, que era o que de fato interessava na Ásia. Nada indicava que se pretendesse descobrir novas terras. Seu caráter era diplomático e comercial.
Dadas as condições da época, aquele arrojar-se aos mares constituía uma grande aventura, que, sem dúvida, excitou as mentes e os corações dos experimentados marinheiros, dos indefectíveis missionários, dos nobres, dos degredados, dos soldados, de toda aquela gente das mais variadas categorias sociais, que a bordo de 13 naus partiu da Praia de Restelo em 9 de março de 1500 sob o comando de Pedro Álvares Cabral.
Ventos e tempestades desviaram a rota da esquadra, trazendo Cabral e sua tripulação para um local por ele denominado de Porto Seguro. Naqueles ermos estranhos, apartados de Portugal por tantos mares, a cruz foi a primeira coisa a se erguer, e a missa, celebrada por Frei Henrique de Coimbra, a primeira cerimônia oficial dos que haviam chegado naquele distante 22 de abril.
Não interessa neste artigo discutir se a descoberta portuguesa, denominada no primeiro momento de Ilha de Vera Cruz, depois de Santa Cruz, depois de Brasil, foi intencional ou não. Se teria o espanhol Vicente Yañez Pinzón pisado nestas plagas antes de 1500 ou, quem sabe, muitos outros antes dele. O esmiuçamento dessas hipóteses foge ao objetivo deste artigo.
O que interessa realmente recordar é que, no dia 22 de abril de 1500, cessou a pré-história e começou a história – com todas as decorrências daí advindas – do que é hoje um país que poderia ter tido os nomes mais bonitos e pomposos de Vera Cruz ou Santa Cruz, mas que foi denominado definitivamente de Brasil.
Foi, pois, uma madeira, a Caesalpinia echinata, vulgarmente conhecida como pau-brasil, interessantíssima como corante para a manufatura têxtil dada a sua cor vermelha, que tingia tecidos, que inspirou o nome que, de tão repetido, ficou, atestando já nessa denominação a característica comercial do empreendimento português.
Aos poucos, porém, os lusitanos foram percebendo que aquilo não era uma ilha, mas que diante de si tinham um gigantismo de terras e uma exuberância de natureza que enlanguescia e, ao mesmo tempo, despertava a cobiça e a luxúria. Era um paraíso perdido, uma desmesurada extensão tropical. Nestas terras colossais, o pequenino Portugal imporia sua maneira de ser, imprimiria sua marca cultural e faria do Brasil sua criação administrativa e sua criatura política.
Quando regressou a Portugal, Pedro Álvares Cabral colheu as glórias do êxito, tendo recebido muitas honrarias de D. Manuel I. Porém o êxito é fugaz. Segundo consta, Cabral morreu no esquecimento, vinte e seis anos depois de ter desvendado para Portugal – talvez por acaso – o caminho de umas Índias que ultrapassariam de muito a imaginação e a ambição que os lusitanos tinham naquele marcante ano de 1500. Nas terras desconhecidas, haveria de emergir um reino cheio de ouro e pedras preciosas, fonte aparentemente inesgotável de uma riqueza que não foi transformada em desenvolvimento.
Desde o início, conforme Sérgio Buarque de Holanda, ‘‘essa exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores’’.
Quinhentos anos depois daquele 22 de abril, pesa ainda sobre o País a herança colonial de profundas raízes culturais. Mas nem excesso de otimismo nem de pessimismo convém numa análise sobre o Brasil ou em prognósticos sobre seu futuro. De fato, dependerá exclusivamente do povo e do governo, através de um esforço consciente, a possibilidade de vencer os grandes desafios que ainda se colocam para o País.
Assim, neste limiar do novo milênio, um dilema crucial se coloca para o ‘‘gigante pela própria natureza’’. Ele foi proposto por Euclides da Cunha em ‘‘Os Sertões’’, no início deste século: ‘‘Estamos condenados à civilização, ou progredimos ou desapareceremos’’.
Recorde-se também, que uma nação é constantemente redescoberta, reconstruída e reinventada pelos cidadãos que nela habitam. Neste 22 de abril de 2000, que cada brasileiro se proponha a redescobrir o gigante adormecido em berço esplêndido. Isso se faz com imaginação, vontade e muito trabalho. E que a consciência da necessidade de nossos esforços se transforme na esperança de um futuro melhor para nossos descendentes, neste 22 de abril de 2000.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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