Recolher-se ao silêncio e orar
Walmor Macarini
Diante de grandes atribulações individuais ou coletivas, quando nos debatemos em aflição e incontrolável revolta – ademais por não podermos interferir diretamente – um bom caminho é adotar a solução caseira de recolher-se ao silêncio e orar. Ficaremos melhores nós, e poderemos tornar um pouco melhores as coisas. Até porque buscar a serenidade interior, nesses momentos, contribuirá para quebrar as correntes de negativismo, que costumam, em tais casos, contaminar uma nação inteira. Se a solução, de imediato, não está ao alcance de nossas mãos, orar – não obrigatoriamente aquelas orações já prontas, mas as que forem movidas pelos sentimentos e circunstâncias do momento – não significará conformismo, mas antes uma poderosa alavanca, que poderá remover montanhas... Muito melhor que emanações de ódio, porque elas só contribuirão para aumentar o tamanho da montanha...
Todos ficamos perplexos, por estes dias, com os episódios da violência na Febem e com a mulher que promoveu aquela festa para a sua cachorrinha. Certamente que não são nem a mulher, nem o inocente animal, nem o evento da inusitada festa, os responsáveis pelos problemas sociais do Brasil, mas há momentos em que certas coisas se desencadeiam em tal sequência que parecem propositais, como que um teste para nossas reações e nossa capacidade de absorver, compreender, extrair disto algum ensinamento e ver que atitude assumir. É difícil ficar indiferente ante coisas como estas.
Antes de mais nada temos que atentar que estes são momentos de grande provação para nós. Festas de grande ostentação, como o episódio do pré e pós-nascimento da filha da Xuxa – num país onde crianças nascem debaixo das pontes e ao relento – e esta celebração da mulher para o seu cãozinho, devem nos ensinar que ocorre aí uma indigência, mais momentânea que permanente – mesmo de pessoas boas e notáveis como Xuxa, ela que, nas madrugadas, costuma visitar creches de crianças carentes – então há que se compreender e perdoar. Alimentar ódio em cima destes fatos será nos colocar no mesmo nível de indigência. Esta mulher da festa da cachorrinha demonstra não ter compreensão do ridículo que comete, porque vive outra realidade, a realidade dela, que não é a mesma da grande maioria das pessoas. Então, ao invés de odiá-la – um gasto de energia tão inútil quanto o exuberante festival que ela promoveu – melhor será nutrir bons sentimentos por ela, se é que a queremos iluminada. A cada qual chegará o momento de compreender o que agora não compreende, e não cabe a ninguém atropelar esse processo. Bons pensamentos, boas palavras, boas vibrações da mente e do coração alcançam distâncias inimagináveis e operam milagres. E nos farão credores de bons saldos... Assim como o inverso operará efeitos inversos, com saldos igualmente inversos.
Compreender e perdoar a indigência das pessoas é um gesto de amor. E se estas pessoas são ricas, ou pessoas que nos hostilizam, a manifestação de amor será algo de mais grandeza ainda. Porque fácil é amar os bons e os que nos encantam com seus gestos; difícil é amar os maus e os ridículos.
Orar e vigiar, ensinam-nos. Orar significa a atitude de serena contemplação e meditação diante dos fenômenos da vida, o que nos transporta para o estado de sintonia com nossa dimensão superior, e aí passamos a tudo compreender. Vigiar significa estarmos atentos para nossas próprias atitudes, do contrário estaremos inabilitados para avaliar as atitudes alheias.
O que faríamos nós em estado de indigência? Certamente que as mesmas coisas que aqueles que condenamos.
Vivemos hoje no Brasil momentos de inquietude social, pelo imobilismo do governo e, por extensão, da própria sociedade. Não vamos bem porque de fato não vamos, e por acreditarmos nisto, piores ficamos. A mente coletiva criou uma situação de impasse. Nos momentos de inconformismo com as situações que nos rodeiam, sempre ficamos impregnados de ira, mas se não nos vigiarmos podemos estar incorrendo no mesmo erro dos nossos algozes e desafetos, e assim alimentado a corrente, que se nutre justamente dessas vibrações negativas.
Orar – independente de pertencer ou não a uma religião – eis uma boa providência. Orar pelos governantes, para que se iluminem e despertem para a sua grande responsabilidade ante a função a que foram guindados; orar por estes infortunados meninos da Febem, vítimas primeiras que são de limitações que a vida lhes impôs, mas na essência filhos e netos tão iguais aos nossos filhos e netos; orar pelos tantos delinquentes que nos roubam, ferem-nos e subtraem vidas; por aqueles que amargam nas prisões, igualmente pais de alguém, filhos de alguém, irmãos de alguém, como nossos pais e nossos filhos e nossos irmãos; orar por aqueles que nos subjugam e atormentam nossos dias.
Orar com sentimento e com a mente serena, mesmo em meio à turbulência das ruas e das nossas vidas, bastando que não haja turbulência em nossos corações.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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