Recepção aos sem-terra
Antes de viajar, o governador Jaime Lerner fez recomendações expressas para que se evitasse, por todas as formas, qualquer tipo de confronto com o MST em função da sua marcha a Curitiba. O alertamento é óbvio, mas é indispensável que se considere que até agora o agrupamento de trabalhadores rurais, que se deslocou de Ponta Grossa, já deu vários motivos para que a autoridade policial os contivesse.
Só de prejuízos com a ‘‘abertura’’ das praças de pedágio de Palmeira, nas imediações de Witmarsum, e de São Luis do Purunã, a Rodonorte contabiliza R$ 15 mil. Houve ataque, segundo os funcionários do consórcio, em todas as cancelas, ficando onze avariadas e duas destruídas. Peritos é que farão os cálculos dos prejuízos. E é claro que serão pagos pela Mãe Joana, o Tesouro, isso é por todos nós. Como se dará, a longo prazo, com todas as invasões. Basta lembrar aquela que deu origem, no governo Requião, ao pedido de intervenção federal no Paraná pelo STJ relativo à Fazenda Can-Can. Hoje o proprietário aciona o governo para que pague todos os prejuízos sofridos durante o tempo da ocupação. E isso se dará com as demais.
Na última grande marcha a Curitiba, os sem-terra conseguiram relaxar prisões dos seus companheiros: era uma espécie de negociação compensatória. Essa a razão pela qual Lerner fez a estrita recomendação, pois teme que se dê com ele e sob seu governo algo parecido com o conflito entre PM e professores em greve no governo Álvaro Dias. O governador tem sido furiosamente criticado pelas desocupações e uma das caricaturas que mais o aborreceram foi a de o terem colocado numa farda militar e como infrator dos direitos humanos.
Abrindo cancelas em praças de pedágio, como já haviam feito antes, os sem-terra fazem um protesto político que conta com a simpatia de boa parte dos usuários das rodovias, que teme tarifas asfixiantes. Com o acampamento e os desfiles pela cidade, eles já não projetam essa empatia, pois é notória a queda de credibilidade do MST junto ao povo, o que tem sido confirmado em pesquisas. Uma delas defendia a reforma agrária e até tolerava invasões de áreas ociosas, - mas combatia ações violentas como as normalmente praticadas pelos agricultores nas áreas ocupadas.
Tudo tem um custo: áreas desocupadas desgastam a liderança basista, pois há cobrança pelo acontecimento; o governo, ao cumprir ordens judiciais, também se deteriora na perspectiva dos movimentos sociais. É uma questão matemática que leva a dar dois passos à frente e um para trás: perderia muito mais se desse continuidade à contemporização que apenas radicalizava os ruralistas e do lado dos sem terra dificilmente seria bem visto ou faria proselitismo.

AXIOMA
Quando afirma que vai ver as Cataratas,
o pobre entra no oculista



BIZARRICE Quando houve, no governo Richa, o acampamento dos sem-terra, de um lado, e professores do outro, diante do Palácio Iguaçu, atribuiu-se a Requião, então prefeito, uma piada bem do seu estilo: teria se mostrado sensível às duas legiões e se nascesse um filho de lavrador com professora se disporia a ser o padrinho.
GLOSA O governo está perdendo de tal forma a batalha da informação no caso dos sem-terra que de repente passa o comando para o Gerson Guelmann, como se fez com a cólera, tratada em Paranaguá, de forma carnavalesca, solta e alegre. O problema é encontrar o meio de fazer um combate bem humorado é que são elas. Carnavalizar um guardamento não é fácil, embora possível.
EPIGRAMA Redundância é convidar integrantes de certos governos para neste mês de junho dançar uma quadrilha.
SPRAY Se estivéssemos no Brasil no tempo das diligências, a marcha para Oeste nos States, os sem-terra jamais ousariam a prática de abater ou roubar gado, ato normalmente punido por milícias particulares com a forca. - Abigiatário, o praticante de roubo de gado, era dos mais abominados na escala delinquente. - No caso da Fazenda Sete Mil, cruzam-se acusações: uma a de que sem-terra agiam em comum acordo com a Polícia, outra a de que os lavradores eram inocentes. Tudo deriva do auto de prisão em flagrante em Ivaiporã, com a apreensão de dois caminhões com 36 cabeças de gado retiradas da Fazenda Sete Mil. - Já da parte dos sem-terra houve um comunicado de que o comprador do gado teria feito um acerto com o escrivão da delegacia de Ivaiporã e o delegado de Arapuã na retirada dos animais. O advogado do comprador denuncia a Polícia e não envolve os sem-terra. - Se num assunto delicado e tenso como o de áreas ocupadas, a Polícia arruma um jeito de ‘‘levar algum’’, como se dá em tantos outros ramos, aí tudo complica. - O auto-policiamento é uma exigência mínima, tanto de um lado como de outro: os sem-terra, em várias ocasiões, como na grande marcha a Brasília, souberam afastar provocadores e os bebuns. Essa exigência é mais fácil ser cumprida pelos sem-terra do que pela Polícia, como sabemos.
FOLCLORE Em Maringá, houve um assalto a banco e a PM chegou antes do que a Polícia Civil e de cara se apropriou das fitas do sistema interno de TV. Bastou isso para que houvesse aquela discussão em torno de competência e que a PM é operacional e não pode atuar em investigações. Enquanto a violência cresce, perde-se tempo discutindo a sexualidade dos anjos.
CROMO ‘‘O sonho sopra o estômago da criança,// mas a criança sopra a bola de ar.// Agora os homens andam arrastando// seus longos intestinos sobre as pedras,// até que se abram as jaulas dos abutres//para que a infância tenha o que ver,// possa brincar e não chore.//’’ Um mural de Colombo de Sousa, 1945.
AFORÍSTICO Cortejar o povo é a mania desenfreada dos deputados estaduais, visível em iniciativas como a da anistia das multas do trânsito e agora essa de impedir que Copel e Sanepar cortem luz e água de quem não paga.

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