Interessante que tem sido essa estréia brasileira no sistema da reeleição. Os conceitos políticos todos passam por uma avaliação, e, de repente, os sustos e rancores dos primeiros momentos parecem dar lugar a uma sensação de maturidade entre os eleitores. O medo maior era o abuso da máquina que o chefe do Poder Executivo gerencia, desviando dinheiro e funcionários para apoio de campanha, empregando além da conta e do possível, para consolidar acordos, liberando estrategicamente, em atenção aos aliados etc. Como se jamais um gerente houvesse lançado mão de, por assim dizer, ‘‘facilidades’’ que o cargo oportuniza para tentar fazer seu sucessor, ou mesmo vencer um pleito para um cargo no Legislativo.
Houve quem dissesse que o advento da reeleição institucionalizaria esse tipo de abuso. De cartunistas a comentaristas, não falta quem esteja apostando nisso - e o discurso da oposição, nem se diga. Mas a realidade está mostrando o contrário. Pelo menos por enquanto, a imprensa não conseguiu denunciar nada. Os fatos, poucos, estão mais concentrados nas contradições existentes entre a vida real da política e a legislação eleitoral. Quer dizer, parece que a Justiça Eleitoral está tendo certa dificuldade em separar o (re)candidato do titular do cargo.
Realmente, deve ser um dilema de metafísica, isso. A pessoa é uma só, porém desempenha dois papéis, o de (re)candidato e o de chefe do Executivo (presidente da República, governador de Estado ou prefeito). Como fazer essa separação? Por exemplo, se o governador tem um compromisso agendado previamente, pela Casa Civil, para inaugurar uma obra numa determinada cidade do Oeste do Paraná, quem descerá do avião, de terno (ou não) há de ser, obviamente, o governador - é o doutor Jaime Lerner no papel de chefe do Poder Executivo. Então o governador faz discurso de chegada, almoça (faz discurso no almoço), e de tarde vai inaugurar a tal obra (não sem fazer outro discurso). Tudo repleto de sorrisos e acenos, apertos de mão, beijos e abraços. Seria até bem razoável se o governador Lerner aproveitasse a viagem e se manifestasse como (re)candidato, não seria? Talvez.
O problema é que a oposição poderia interpretar que o doutor Jaime, que voara como governador no avião do governo, que recebera, certamente, diárias para custear sua estadia, estaria usando a máquina pública para fazer campanha. Parece lógico? Talvez. Em que momento sai de cena o personagem do governador e entra o personagem do candidato? Depois do expediente? A que horas? O homem que almoçou como governador poderia jantar como candidato? Quem sabe um encontro com os correligionários do partido, às 3 da madrugada? Ou seria necessário que o doutor Jaime voltasse para a Capital, esperasse o fim de semana (o governador deixa de ser governador sábado e domingo?), trocasse o terno pela camisa xadrez, jaqueta de couro e calça jeans, e viajasse de novo para a tal cidade? Faria outros discursos? Pode ser que haja diferença entre discurso de (re)candidato e discurso de governador, mas como diferenciar o discurso não-verbal dos acenos, sorrisos, apertos de mão, abraços e beijos?
Decerto, a oposição adoraria se a lei impusesse a desincompatibilização do cargo, meses antes das eleições. Mas ela não impõe. (Até poderia supor que o vice, caso assumisse, teria o maior interesse em ajudar seu ex-companheiro de chapa. No entanto, a história paranaense recente mostrou que nem sempre os vices apostam nos companheiros de partido. Vide a campanha do senhor Álvaro Dias, em 94. Até quem não entende nada de política percebeu que ele fora abandonado à própria sorte pelo gerente da hora, vice que assumiu).
Engraçado alguém pensar que em nossa democracia existe obra de governo que não seja, por natureza essencial, eleiçoeira. Qual chefe de Executivo que faz um metro de estrada asfaltada sem pensar em corresponder às expectativas da população e, assim, permanecer na carreira?
Ouvi de uma senhora septuagenária, professora primária aposentada, que a criação do pedágio não era obra eleiçoeira. ‘‘Porque foi antipática’’, disse ela, logo reconhecendo que as rodovias estavam bem melhores e, que inclusive, o governador tinha cortado pela metade a tarifa. Sobre o assunto, os agentes de Justiça Eleitoral, ou da oposição, devem ter pensado - continuando com o dilema metafísico - que a criação do pedágio é coisa de governador, mas o corte na tarifa foi coisa de candidato.
Pode a metafísica fomentar, mas o eleitor, em geral, está achando mesmo que governador (presidente, prefeito) e (re)candidato é tudo uma coisa só. E vai votá no que for bão.

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