'Reaproximação interessa a Cuba e aos EUA'
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 2015
Antoniele Luciano<br> Reportagem Local 
Londrina As relações entre dois países estão longe de ser fundamentadas em apenas boa vontade. Quando se fala de Estados Unidos, a maior potência capitalista do mundo, e Cuba, o pouco de comunismo que sobrou da Guerra Fria, os interesses que envolvem uma aproximação podem ser ainda mais específicos. Na visão do especialista em Política Internacional, o sociólogo Demétrio Magnoli, da Universidade de São Paulo (USP), o reatamento diplomático entre as duas nações tão distintas obedece a diferentes motivações.
Cuba, diz ele, quer encontrar uma nova forma de sobreviver economicamente além da influência venezuelana. Os Estados Unidos, por outro lado, buscam superar um elemento ainda disfuncional em sua política perante a América Latina. "A política dos EUA para a América Latina precisa superar este obstáculo para que os EUA possam ter um novo patamar de relações com todo a região. Obama acha que o embargo econômico nunca serviu para forçar uma abertura democrática em Cuba", analisa o doutor em Geografia Humana.
Desde 1982, Cuba segue na lista de países que patrocinam o terrorismo. Na mesma relação, elaborada pelo Departamento de Estado americano, constam ainda Irã, Síria e Sudão. Na última semana, após o histórico encontro entre os dois líderes na Cúpula das Américas, realizada no Panamá, Barack Obama deu mais um passo para a reaproximação ao pedir ao Congresso norte-americano que Cuba seja retirada da lista. A pedido da FOLHA, Magnoli fez uma análise do impacto que a reaproximação entre o país caribenho e Estados Unidos pode ter no cenário cubano e na economia internacional.
Como o senhor avalia esta aproximação diplomática entre Cuba e Estados Unidos? Alguns especialistas a apontam como improvável. Ela pode realmente acontecer?
Não é bem uma aproximação diplomática, mas é um reatamento de relações diplomáticas que obedece a interesses dos dois lados. Obedece a interesses de Cuba porque desde que Raul Castro lançou sua abertura econômica, suas reformas econômicas em Cuba, que na verdade há um desmantelamento em câmara lenta do sistema da economia cubana, isso foi motivado de que Cuba não acreditar mais, na possibilidade de longo prazo, em ser subsidiada pela Venezuela. Grande parte da energia e petróleo em Cuba é subsidiada pela Venezuela. Com a crise econômica e política na Venezuela, do chavismo, Cuba não acredita na possibilidade de que isso se mantenha por um longo tempo, procura uma saída. Esta saída são investimentos internacionais. O que Cuba quer é viabilizar sua própria reforma econômica, que depende de uma nova relação com os Estados Unidos. Do ponto de vista de Obama, a análise do governo é que a política dos EUA para a América Latina tem no embargo a Cuba um elemento disfuncional. A política dos EUA para América Latina precisa superar este obstáculo para que os EUA possam ter um novo patamar de relações com todo a região. Obama acha que o embargo econômico nunca serviu para forçar uma abertura democrática em Cuba. Ao contrário, sempre serviu como pretexto para o governo castrista reprimir a oposição. Os dissidentes são apontados em Cuba como agentes dos EUA, que é a potência que pratica o embargo econômico. A retirada do embargo, na visão de Obama, então ampliaria a pressão interna e externa sobre o governo cubano para uma abertura política. O reatamento implica numa redução imediata do embargo. Já se planejam voos diretos para Cuba, aumento do fluxo de turistas americanos para Cuba e empresas americanas já analisam investimentos em Cuba. É uma nova situação que se abre.
Essa crise na Venezuela, de certa forma, facilitou esse processo?
Sem dúvida. Você tem uma situação curiosa, paradoxal: o governo de Maduro tem a Venezuela tentando ser o que Cuba foi e não quer mais ser, uma economia estatizada. E Cuba não quer mais ser isso. A Cuba do passado é o futuro almejado pela Venezuela de Maduro.
O que fim do embargo americano pode representar para a sociedade cubana? Seria o fim do comunismo?
A economia estatizada como existe em Cuba não tem futuro, o que é admitido pelo próprio governo cubano, inclusive explicitamente. A abertura econômica, embora lenta, vem acontecendo nos últimos anos. O governo cubano já admite o trabalho por conta própria em inúmeras atividades, porque se pretende reduzir o número de funcionários em empresas estatais. O comércio privado começa a ser admitido e os investimentos estrangeiros são procurados desesperadamente por Cuba. O modelo que utilizam é o da abertura econômica do Vietnã, já não é uma economia estatizada, é capitalista de estado. É apenas parcialmente estatista. O fim do embargo ainda não aconteceu, está sendo flexibilizado. É coisa que vai demorar algum tempo porque tem uma série de aspectos que não dependem da Casa Branca, dependem do Congresso. Com o atual Congresso, muitos deles vão se manter. Mas a flexbilização vai significar desde já um aumento muito grande dos investimentos estrangeiros e inclusive dos americanos em Cuba. Isso vai ter dois impactos sobre Cuba. Um econômico que é a economia privada que terá uma parte cada vez maior da economia cubana. Isso cria tensões porque a grande parte d estabilidade da economia em Cuba está ligada ao emprego estatal, à cartela do racionamento, tudo isso vai gerar tensões. Cuba vai começar a conhecer desemprego, diferenças de renda maiores do que existem hoje e isso provoca tensões sociais. Ao mesmo tempo, se torna cada vez mais dificil reprimir os dissidentes porque estão atuando, tem blogs para tudo quanto é lado, porque a justificativa de que Cuba é uma fortaleza sitiada pelos Estados Unidos cai por terra. Será cada vez mais escandaloso dentro de Cuba e no cenário internacional a repressão aos dissidentes.
Existe um cenário político favorável nos Estados Unidos para que haja a retirada do embargo econômico para Cuba?
Não, nos Estados Unidos não. O que Obama está fazendo é tentar usar medidas que o Executivo pode tomar. Mas a lei do embargo econômico só pode ser derrubada pelo próprio Congresso. E isso dificilmente vai acontecer antes da próxima eleição presidencial. Antes de 2016, vamos ter a manutenção de uma parte do embargo que é a que não depende do Executivo.
Que impactos a influência americana pode ter na América Latina com a retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, já que temos alguns países com governo esquerdista na região?
São dois grupos de países. A Venezuela, com governo apoiado por Kirchner, é contra, porque isso reduz a a influência venezuelana em Cuba e no Caribe, que passam a depender cada vez menos da Venezuela. E isso também ilumina com mais clareza as trajetórias diferentes de Cuba e Venezuela. As trajetórias contrastantes. Enquanto Cuba abre sua economia, a Venezuela fecha a sua. Do ponto de vista da Venezuela e dos países que a apoiam, Bolívia, Argentina e Nicarágua, esses países são contra a reaproximação, embora nunca vão dizer isso porque são aliados de Cuba e não vão criticar o governo cubano. O governo brasileiro, por outro lado é a favor, porque é um aliado de Cuba e vê nisso a boia de salvação para o governo cubano, que é a análise do próprio governo cubano. Então isso divide os governos chamados de esquerda na América Latina. O resto da América Latina apoia a aproximação entre Cuba e os Estados Unidos. O impacto que isso pode ter é que cada gesto de repressão do governo Cubano contra dissidentes vai provocar um escândalo maior diplomático na região. Vamos ver mais protestos do que víamos há pouco tempo porque não existe mais o pretexto inicial.
Como fica o papel de Cuba no cenário econômico?
O país vai incorporar cada vez mais a globalização, vai se tornar mais normal deste ponto de vista. Vai fazer um comércio exterior crescente, importar produtos em maior quantidade, exportar alguma coisa, receber turistas em maior quantidade e ter mais investimentos estrangeiros. Isso significa que o mundo exterior vai ter uma maior influência sobre Cuba, como acontece com o Vietnã, com a China. A diferença de Cuba com a China, em que o governo abre a economia, mas mantém a política fechada, é que a China é uma potência econômica mundial, o que dá ao seu governo condições de manter um regime autoritário, o que Cuba não tem. Eu acho que o processo não será rápido, nem catastrófico, mas que será de abertura política de Cuba a longo prazo.
No caso do Brasil, como está a relação do país com a União Europeia? O país está se fechando hoje no chamado Novo Mercosul?
O Mercosul foi criado como bloco de integração econômica regional e de abertura de países do Mercosul para a globalização. Mas se tornou em outra coisa depois da entrada da Venezuela. Se transformou em um diretório político controlado por três governos Brasil, Argentina e Venezuela, cada vez mais fechado a acordos internacionais. Isso chegou ao ponto no qual não serve mais aos interesses brasileiros. O Brasil teria interesse em avançar num acordo comercial coma União Europeia, mas não pode avançar porque a Argentina não permite avançar. Só há duas soluções para isso reduzir o Mercosul a uma mera zona de comércio, em que os integrantes podem negociar acordos com terceiros sem seus parceiros. E a outra alternativa é o Brasil impor juridicamente ao Mercosul que ele vai negociar um acordo independente com a União Europeia. O governo Dilma não está disposto aparentemente a fazer nada disso, porque significaria romper com um dogma do PT, de que o Brasil só negocia junto com os países do Mercosul.


