Luiz Antonio Fayet
Colecionei, ao longo desses anos, análises e avaliações do Plano Real, tanto as efetuadas pelo oficialismo como por economistas independentes. Sob aspecto de concepção a aprovação ele foi unânime, mas sua gestão foi objeto de muita polêmica. Lastimavelmente, as expectativas oficiais não se confirmaram e a ‘‘conta’’ chegou para o sofrido povo brasileiro pagar. As raízes da crise que enfrentamos não foram causadas por crises de outros países; elas foram geradas aqui mesmo em função de dois pontos fundamentais: a sobrevalorização artificial e desnecessária do câmbio e os desequilíbrios das finanças do setor público.
A sobrevalorização do real, que permaneceu ao longo de quatro anos, gerou a seguinte situação na balança comercial, em milhões de dólares: 1991 (10,5), 1992 (15,2), 1993 (13,2), 1994 (10,4), 1995 (-3,3), 1996 (-5,5), 1997 (-8,3), 1998 (-6,4), 1999 (5,3, segundo previsão do Ministério da Fazenda em junho último). Os números vieram da Secex.
A economia brasileira sempre foi geradora de saldos positivos. No período de 1991/1994, conseguia superávits médios anuais de US$ 12,3 bilhões, acumulando US$ 49,3 bilhões, mas com a sobrevalorização, passou a ter déficits médios anuais de US$ 5,9 bilhões, entre 1995/1998, acumulando um negativo de US$ 23,5 bilhões.
Fazendo a conta do que se deixou a de ganhar, mais o que se perdeu (49,3+23,5), constatamos que o destino gerou uma perda potencial direta de US$ 72,8 bilhões em quatro anos. A média anual de perdas foi de US$ 18,2 bilhões (12,3+5,9), ou seja, mais de 3% de nosso PIB. Se agregarmos a isto o custo do dinheiro especulativo que foi atraído para o País, para fingir que tínhamos reservas, a conta passa longe dos US$ 100 bilhões. Além disso, tem o déficit da conta turismo e o vexame da concordata internacional avalizada pelo FMI. Não precisava.
As avaliações que temos realizado indicam que provavelmente o Brasil, nestes cincos anos, só pelos erros da política cambial, jogou no lixo um PIB de R$ 250 bilhões, o que é muita coisa para quem tem um PIB anual de R$ 900 bilhões. Foi mercado interno e externo que demos de presente para os fornecedores e competidores estrangeiros.
Isto explica as quebras de empresas e de segmentos da economia, bem como a construção do mais dramático quadro de desemprego da história brasileira, além do aumento da dívida externa do País. Fica a pergunta: como vamos gerar cerca de US$ 30 bilhões anuais para pagar os compromissos de nossas contas correntes?
No rastro deste erro tivemos ainda a desnacionalização da economia e a alienação por preços aviltados do patrimônio público, ações muitas vezes financiadas com recursos oficiais pelo BNDES. De outro lado, a dívida do setor público, nestes cinco anos, praticamente triplicou.
Parte pelo descontrole do governo e parte pelo custo de sua rolagem. A loucura cambial gerou a loucura das maiores taxas de juros do mundo. A compra da possibilidade de reeleição foi o fato individualmente mais importante. Aliás, está claro que nosso País não é institucionalmente maduro para este estatuto.
Para tapar este rombo aumentaram-se tributos, e a sociedade brasileira, a despeito de sua pobreza, para uma das maiores cargas fiscais do mundo. Mesmo assim, para fechar as contas o governo provavelmente irá dilapidar o que sobrou do patrimônio nacional. Foram cinco anos de prestigiamento à especulação financeira contra a produção e o emprego.
O Plano Real, que nos seus primeiros dois anos iniciou um saudável processo de redistribuição de renda, reverteu o curso e ampliou ainda mais a concentração. Mas, afinal, não aconteceu nada de bom? Aconteceu. A população entendeu a importância do combate à inflação. As privatizações começaram a mostrar o seu lado positivo. E só.
Agora começou uma nova fase. A realidade cambial começa a abrir caminho para a recuperação da economia e, já deveremos conseguir saldo no comércio externo, embora modesto, pois em cinco anos de massacre, as empresas perderam mercado e canais de comercialização. Alguns produtos brasileiros, inclusive, saíram da pauta dos importadores do resto do mundo. A redução das taxas de juros primários dão um alento aos endividamentos, mas não cria mercado. O que cria mercado é a renda, o desenvolvimento.
E o controle dos preços? Tem pontos positivos, mas não podemos imaginar que eles estão definitivamente contidos. A recessão está segurando preços, mas atenção, o IPA (Índice de Preços no Atacado, da FGV), projeta crescimento de 19% para este ano. Se os preços crescerem 15% este ano por conta do ajuste cambial e do aumento da carga fiscal, é tolerável e acaba sendo um preço baixo para a retomada do crescimento.
Na passagem do quarto ano do Plano, escrevi que a reversão das tendências tinha uma receita simples: ajuste cambial; estímulo e proteção à agricultura; contenção férrea do déficit público e redução mais acelerada das taxas de juros. Tal posição característica dos economistas independentes recebeu qualificativos pejorativos: fracassomaníacos, catastrofistas, neobobos etc.
Lastimavelmente para o Brasil, os qualificativos não estavam corretos, no nosso currículo isto não estará escrito e, muito menos: carreiristas; genocidas. A desgraça que se abateu sobre milhões de brasileiros não será esquecida. Em Kosovo, perto de 1,5 milhão de habitantes sofrem as agruras da guerra, enquanto que só na Região Metropolitana de São Paulo, são 1,8 milhão de desesperados desempregados.
Mas não há governo que destrua este País. O Brasil é muito forte. Somos 160 milhões de brasileiros que ao longo deste século construímos a economia que mais cresceu no mundo. Deixamos de ser o país atrasado de antes da 2ª Guerra Mundial para ser a 7ª economia do mundo. Os nossos trabalhadores, empresários, donas de casa, estudiosos e, toda a população enfim, têm consciência clara da capacidade coletiva de reconstrução.
Apesar do imenso custo social desnecessário, vamos retomar o caminho do crescimento e o Brasil vai ser reconstruído. Fica aquela velha máxima de nossa gente: o Brasil cresce de noite mais do que alguns políticos e governantes o destroem de dia.
- LUIZ ANTONIO FAYET é membro do Conselho Regional de Economia do Paraná, foi deputado federal e presidente do Banco do Brasil

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