Reabertura das escolas: complexa e dispendiosa, mas necessária
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segunda-feira, 05 de outubro de 2020
Espaço Aberto 
Atualmente, nenhum tema é tão candente quanto o retorno às aulas presenciais, que envolverá 48 milhões de estudantes da Educação Básica e mais 8,4 milhões do Ensino Superior. Como tudo o que se refere à Covid-19, há polarizações exacerbadas, estatísticas para todos os gostos e as fake-news que se espalham como ervas daninhas.
E quando as versões contrariam a ciência, pior para a ciência. O retorno de muitas áreas e atividades à quase normalidade está num ritmo frenético demais em todo o país – muitas vezes à revelia das leis e das autoridades –, e a expressão "fique em casa" passou a ser substituída por "ninguém aguenta mais".
Viralizou um meme de uma foto em uma de nossas praias coalhada de guarda-sóis, encimada por uma pergunta: e aqui não há alunos, nem professores? Todo o problema que se queira resolver deve ser enfrentado, e estamos apenas tangenciando, postergando, feito um tear de Penépole, em relação ao tema reinício das aulas presenciais. É uma ilusão esperar pelas condições ideais, uma vez que esse vírus capiroto já sinalizou que não vai dar esta canja tão cedo. E sempre oportunas são as palavras de Roberto Campos: "o debate honesto pressupõe conhecimento da causa".
“Estamos condenando esta geração de crianças e jovens. Os riscos são pouquíssimos" –, defende com ardor a psicóloga Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna. A OMS, Unicef e Unesco fizeram, no mesmo sentido, um apelo aos governos para que coloquem a abertura de escolas como prioridade. Há dois meses, as escolas privadas de Manaus retornaram às suas atividades presenciais e nenhum caso de registro de infecção pelo coronavírus. Com bom planejamento, seguiram os 6 eixos principais – sobejamente conhecidos e exequíveis – com base nos padrões internacionais. O reinício deu-se gradual e não obrigatório, com turmas de 4 alunos e hoje com cerca de 15.
Todavia, no Brasil, 9 estados ainda estão sem prazo algum para o reinício das aulas.Nos demais, a retomada é escalonada e cuidadosa – o que se faz mister. Em vários países da Europa, as escolas foram liberadas antes do comércio: naqueles pertencentes à OCDE as instituições de ensino permaneceram fechadas por 98 dias em média, com destaque para a França, 56 dias, e a Alemanha, 68. No Brasil, já vivemos mais que o dobro disso, tendo já sido ultrapassada a marca dos 200 dias. Estamos num dos lugares mais altos do pódio, juntamente com o Paraguai.
Se é importante que sejam estabelecidos prazos para a abertura, mais que isso é necessário definir-se o "como abrir", tema este que se deveria debater. Essa tarefa exigirá semanas de um bom planejamento organizacional e financeiro, bem como da complexa e dispendiosa reconfiguração do espaço físico e implementação das normas sanitárias e de biossegurança. Tudo será diferente, se comparado com o retorno após as tradicionais férias de verão, sempre festivo, com abraços efusivos e aquela algaravia que soa como música aos ouvidos dos educadores.A ênfase das primeiras semanas é o acolhimento, o vínculo afetivo, correção de disparidades de aprendizagem, equalização dos conteúdos de cada componente curricular. O discente vai encontrar outra escola, seja antes, durante ou após as aulas.
Não menos fácil será estabelecer a divisão entre os conteúdos que serão presenciais ou remotos, uma vez que não será viável um retorno pleno no curto e médio prazo.Mais do que nunca, escola e família devem ser parceiras; mais do que nunca, a direção deve manter uma boa comunicação e transparência diante da comunidade escolar, pois haverá revezes, imprevistos ocorrerão.
Jacir J. Venturi, professor, foi diretor de escolas públicas e privadas, e docente da UFPR, PUCPR e Universidade Positivo.


