O progressivo distanciamento político da sociedade brasileira, o qual descambou na cultura da ‘‘razão cínica’’ (Peter Sloterdijk - filósofo alemão), cuja tradução seria o famoso ‘‘jeitinho’’ brasileiro, é usado agora pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) como novo cavalo de batalha. Só que na guerra errada.
Segundo um documento elaborado por especialistas contratados pela entidade federal, concluiu-se o que todo mundo já sabe há muito tempo. O cavalo de batalha do MEC será um novo currículo escolar, impondo disciplinas como ética, relações do trabalho e consumismo. A função de um governo deveria ser a de regular as relações entre os entes sociais, dentro de ditames justos, democráticos, respeitando as diferenças sócio-econômicas e culturais e não pressupor sabedoria para se colocar como mestre.
O que temos estão? Implantação progressiva e quase imperceptível de um socialismo, quase um ‘‘comunismo plutocrático’’, no qual as roupas podem ser diferentes; a maneira de pensar, agir e planejar, não. Lavagem cerebral é a receita para a formação do rebanho de ‘‘vaquinhas de presépio’’.
Por que isso? Por causa do famoso jeitinho brasileiro, do descrédito às instituições, da progressiva desagregação social, do incremento da lei de levar vantagem e do ‘‘salve-se quem puder’’, ‘‘danem-se os outros’’, ‘‘não quero saber’’. A única coisa que o MEC acertou foi na constatação. Infelizmente, errou na solução, mesmo por boa vontade (se for o caso).
Para se erradicar males, a regra é buscar as causas. Não há efeito sem causa. Qual é a causa? Educação deficitária? Escolas ruins? Nem tanto. O homem é o produto do meio em que vive. Qual é o meio em que vivemos? Sejamos francos: a sacanagem começa em cima. O exemplo (mau) vem das esferas de governo, do Legislativo, do Judiciário, da polícia, da arrecadação e sistema tributário e de tantas barbaridades, desvios, desmandos e falta de respeito com as pessoas, com a sociedade como um todo. O que esperavam como efeito?
Diz um provérbio árabe que ‘‘quando um sultão se apropria indevida ou imoralmente de um fruto do pomar de um de seus súditos, seus guerreiros roubarão toda e qualquer fruta. Se ele se apoderar de um ovo, seus asseclas se valerão de mil galinhas’’.
A natureza do homem obedece às leis universais e milenares de comportamento. Coloque um homem cheio dos maiores valores morais, éticos, ecológicos, religiosos entre outros ‘‘osos’’ numa prisão cheia de marginais da pior espécie e ocorrerão, na maioria absoluta dos casos, duas coisas: a sua morte física ou a sua morte como cidadão civilizado. A regra diz que não se trabalha com exceções à regra.
Para que se corrijam os efeitos, agora oficialmente constatados pelo MEC, deve-se corrigir o meio no qual as pessoas vivem. Qual é o meio? É um país livre, com justiça social que só pode ser conseguida com oportunização igual a todos, a qual só pode ser obtida com profundas reformas político-administrativas começando pelo plano federal (autonomia judiciária, financeira, tributária e administrativa aos Estados).
O resultado, através da possibilidade de escolha dos próprios caminhos pelas comunidades estaduais e municipais independentes das canetadas da União (que esqueceu que o país tem 8,5 milhões de km2), aparecerá no auto-exemplo. Filhos não mais assistirão pais sonegando impostos e fazendo falcatruas, por menores que sejam, justificadas pela sobrevivência da família e se desenvolverão sem assistir escândalos de corrupção, privilégios das oligarquias e ‘‘amigos do rei’’. Não verão mais novelas e filmes brasileiros onde o herói é o malandro, o vilão é o empresário e o honesto e ‘‘certinho’’ é trouxa.
Caso contrário, a prosseguir o estado de coisas associado ao plano do MEC, assistiremos à formação do maior rebanho socialista do planeta, na mais perfeita ‘‘ordem’’.
- THOMAS KORONTAI é empresário e escritor

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