Ratinho resgata o Nordeste
Walmor Macarini
O apresentador Ratinho mostrou que o Nordeste é possível. Ele descobriu uma aldeia abandonada, em pleno sertão nordestino, mandou para lá um truck destes com broca para furar poço, encontrou água, trouxe de volta os moradores, que haviam abandonado o lugar, a terrra voltou a produzir e agora a pequena comunidade está reativando a vida do lugarejo e da lavoura. Um repórter e um camera-man documentaram tudo, desde o início, provando que a solução para o problema da seca nordestina é mais fácil do que se imagina.
O apresentador e agora também empresário mostrou algo mais que sério, que é a possibilidade de o Nordeste produzir, e produzir bem e em abundância. Isto se os maiores inimigos daquela região – que são os políticos de lá mesmo – não impedirem.
Os repórteres de Ratinho começaram mostrando a desolação do lugar, com as ruas desertas, as casas abandonadas, a terra estorricada pela falta de água. Porque onde não há água não há vida, a terra nada produz e a miséria se instala. Sob o olhar curioso da pequena e esperançada população – homens, mulheres e crianças – a broca foi penetrando o solo seco, e de repente o milagre. A água jorrou, abundante. Preparada a terra e canalizada a água, chegam as sementes, enviadas pelo programa do apresentador. Com a água as sementes germinam, e em dois meses e meio, o fenômeno da colheita!
Não um filme de ficção, mas a realidade, que foi sendo documentada pela equipe jornalística, num trabalho que durou vários meses.
Milho, feijão, tomate, cebola, macaxeira, melancia. Frutos grandes, colheita abundante. E a alegria de velhos, jovens, crianças, que já haviam perdido a esperança de que poderia haver salvação para eles. Num pé de tomates, mais de 50 frutos. O milharal, com duas a três espigas por pé, e espigas graúdas. A melancia, colhida ali mesmo, é saciada por todos. Fruto doce, certamente, porque o Nordeste de solo magro, porém fértil, produz frutos mais doces que os das terras gordas.
O que mostra Ratinho? Que no subsolo seco nordestino há água, e em abundância, deixando explícito que se ela não é extraída é porque os políticos e as famílias feudais da região – que se nutrem da indústria da seca e da miséria – não permitem.
E imaginar que somas fabulosas são destinadas para lá há quase meio século, através de um denominado Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) e de uma denominada Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) justamente – como diz o nome – para desenvolver a região. Mas essas verbas parece que nunca chegaram ao destino, porque o sertão nordestino continua seco e pobre.
Ratinho não descobriu nada de novo, obviamente, mas confirmou a evidência de que há água no subsolo do árido Nordeste e que basta furar um poço que a água verte. E com água tudo floresce e político que não presta fenece.
Sabe-se que nas propriedades dos políticos e dos ‘‘senhores de engenho’’ existe água em abundância, mas para o sertanejo ela é negada. Porque com água ele se emancipa, e emancipado não precisará do assistencialismo dos políticos e não ficará devedor do voto.
Os políticos nordestinos – estes que ouvimos proferindo belos discursos pela tevê – porque outra coisa não fazem de útil para a sua gente senão falar, e como falam! – sustêm-se no poder graças à miséria em que mantêm cativos os seus co-irmãos. Qual vampiros.
Nenhum governo, em tempo algum, fez um projeto sério para recuperação do Nordeste, porque se fizer encontrará resistência dos chefes políticos da região. E seus votos no Congresso são valiosos, quando o governo deles precisar...
Se Ratinho, por conta de seu programa, continuar furando poços na região das secas e descobrindo água, logo criará um problema para o governo, porque a opinião pública começará a perceber e a questionar, acostumada que foi a acreditar na mentira de que a seca do sertão nordestino é apenas um problema climático e não um problema político.
Há os que são contra certos quadros do programa do Ratinho, mas com essa de furar poços ele acertou na veia. Ou melhor, no veio! Agora ele está buscando a mobilização de empresários para que, cada um, doe um poço à população sofrida do sertão nordestino. A campanha pode pegar, porque já não dá para duvidar do que Ratinho é capaz. Se o governo não faz, ele entra nessas brechas, e faz...
Dirão alguns que o apresentador está apenas buscando pontos no Ibope. Isto é o menos importante, porque acima disto ele está mostrando algo muito denunciador. Ratinho ousa. Nunca outro apresentador fez algo semelhante, como esta idéia de ressuscitar uma cidade fantasma do agreste nordestino, furar um poço às próprias expensas, fazer jorrar água e a terra produzir. Não com muito gasto, apenas com um poço e com a participação da própria comunidade. Deve, sim, ter ficado caro para o programa, mas não será caro num projeto em escala. Ratinho provou, ademais – se isto fosse preciso provar – que o sertanejo não é um indolente, mas apenas um homem enganado e subjugado.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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