Raposas e leões
Precisando um príncipe utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo a raposa e o leão; pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos. O conselho, como alguns já imaginam, é de Maquiavel, e, nesse momento de primeiras escaramuças pré-eleitorais, pode ser bastante apropriado para pré-candidatos e afins. Como Aristóteles já definiu o homem como um animal político, nada mais lógico que escolha a postura mais conveniente incluindo o caráter de animais irracionais para enfrentar os meses de turbulência que se aproximam.
Não adianta, porém, ser raposa ou leão, para enfrentar armadilhas e espantar adversários, se o político não conhece suas próprias deficiências. Conhece-te a ti mesmo, ensina o provérbio grego. A primeira lição do ABC pré-eleitoral passa, portanto, pela análise dos pontos fortes e dos fracos do próprio perfil.
Essa tarefa garante resultados eficazes quando a pessoa projeta sua personalidade e postura na moldura conceitual que apura os valores, os comportamentos, a experiência passada, os compromissos a serem assumidos e as ações realizadas no cotidiano. Sou arrogante ou simples, preparado ou despreparado, irado ou equilibrado, atencioso ou desleixado, receptivo ou surdo, presunçoso ou modesto, verborrágico ou conciso, correto ou desleal, solidário ou egocêntrico? Que tal começar com este pequeno exercício de interpretação autopessoal?
Tentemos, por exemplo, uma avaliação sobre os pré-candidatos do cenário presidencial. Itamar Franco tem como pontos positivos a identificação com uma corrente nacionalista; o combate feroz aos desmandos e distorções da administração federal; a postulação de idéias que procuram recuperar a auto-estima dos cidadãos. Mas tem contra si o destempero, a ira acumulada contra Fernando Henrique, um certo comportamento abrupto que dispara a insegurança de fortes contingentes eleitorais. O homem irado, diz o tratadista italiano Albertano de Brescia, acha que sempre pode fazer mais do que realmente é capaz. Itamar é mais ou menos isso. Promete mais do que pode cumprir.
Lula é conhecido pela luta oposicionista e pela extrema identificação com as causas das camadas mais necessitadas. Tem experiência de campanha e vai para a quarta disputa chamuscado pelas derrotas anteriores. Para tirar a fama de radical, limpa a imagem com o pó macio do reconhecimento dos eixos do programa tucano: a estabilidade da moeda, a necessidade da CPMF, a negativa de que o governo do PT dará calote. Um dos pontos fracos dos petistas era a capacidade de fazer diagnóstico sem a correspondente solução, coisa que estão procurando corrigir. Lula está fazendo cursinho de raposa e começa a dar os primeiros rugidos de leão.
Ciro Gomes tem boa bagagem, sabe articular as idéias, tem noção dos problemas nacionais, já é razoavelmente conhecido, mas parece muito presunçoso. Passa a idéia de saber tudo, de ser infalível como um velho papa. Não há como deixar de colocá-lo na moldura desenhada pela frase da escritora inglesa G.Eliot: Ele era como um galo que pensava que o sol surgia para ouvi-lo cantar. Aliás, o estilo Ciro Gomes está se multiplicando em muitos Estados, com pré-candidatos a governador assumindo o perfil de vestais.
José Serra é muito preparado, seguramente é o que detém a maior bagagem de conhecimento sobre os problemas nacionais. Tem uma visão técnica aprimorada e muita experiência política. Mas não tem carisma. É um candidato sem charme. Pior do que Ciro no capítulo da arrogância e presunção, poder-se-ia compará-lo a Vespasiano, o imperador romano, em suas palavras no leito de morte: Ai de mim, creio estar me tornando um deus. Garotinho é um projeto em construção, que pode ganhar densidade, a partir da administração positiva no Rio de Janeiro. Tem mobilidade, porém pouco conhecimento da realidade nacional. Precisa de mais estofo. E entrar firme no curso de raposas e leões. Fiquemos, por ora, com estes.
Aqui surge a grande interrogação: eles se conhecem, sabem apontar seus pontos fracos e fortes? Ou será que estão contaminados com o oxigênio da emoção? Agir exclusivamente de acordo com o fluxo emotivo pode ser perigoso. O coração tem prisões que a inteligência não abre. Portanto, convém pensar com a cabeça e arremeter com o coração, evitando a síndrome do touro, que faz exatamente o contrário.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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