Rápido, nossos jovens estão morrendo
Casa que falta pão todo mundo briga e ninguém tem razão. Este ditado antigo melhor explicita a situação de insegurança de nossa cidade e a tentativa desesperada de algumas lideranças políticas e empresariais de se encontrar uma solução rápida para um problema complexo e antigo, cujas soluções certamente extrapolam as receitas precipitadas daqueles que não percebem as causas estruturais que nos levam aos atuais índices de criminalidade.
Vivemos em uma sociedade cujos valores predominantes nada têm a ver com os princípios de justiça, igualdade, solidariedade e fraternidade. A sociedade está estruturada prioritariamente para a competição desenfreada, o acúmulo de bens e de propriedade e a geração e concentração de lucros ilimitados, sem considerar o elemento humano como primordial e fundamental, verdadeira razão da existência do nosso planeta.
Assim, os sistemas políticos dominantes, as doutrinas econômicas e as estruturas da sociedade sempre, ao longo da história, estiveram a serviço daqueles valores, excluindo seres humanos que não conseguissem acompanhar o processo de desenvolvimento.
Desnecessário dizer que a história do Brasil é uma história de dominação de uma elite incompetente e incapaz de oferecer ao longo dos nossos 501 anos um projeto de nação que incorporasse a maioria dos brasileiros. A submissão dos diversos governos aos interesses do capital internacional e de uma elite nacional atrasada fica evidente em uma rápida olhadela para a nossa história.
Atualmente, a crise se aprofunda. Sob a égide do neo-liberalismo, nova roupagem do modelo de exploração, e com a urbanização da sociedade brasileira, iniciada em 1950 e que hoje faz com que 80% dos brasileiros vivam em cidades, a sua grande maioria em metrópoles demandando serviços públicos de educação, saúde, saneamento e habitação, bem como de trabalho digno para a sua sobrevivência. Vale dizer que o Brasil é a única fronteira agrícola a ser aberta no planeta e se contasse com uma política agrícola e agrária que assegurasse competitividade e manutenção do homem no campo, este processo seria revertido.
Voltemos às cidades. Hoje são 170 milhões de brasileiros, dos quais 50 milhões vivendo na mais absoluta miséria, sem perspectiva nenhuma que não seja a caridade alheia. A grande maioria em regiões metropolitanas brasileiras. Desemprego, habitação subumana, desagregação familiar, violência doméstica, alcoolismo, drogadição, morte. Este parece ser o calvário das vítimas da violência. Crianças pedindo esmolas, cuidando de carros, cometendo pequenos furtos, sendo usadas por traficantes com mensageiros da droga, também está aí o caminho trágico das nossas crianças e adolescentes. Misture-se a isto a nossa polícia mal remunerada, desestimulada, mal equipada e um sistema penal e judiciário ineficiente, está aí o ambiente em que deveremos tratar a questão da violência, suas causas, consequências e soluções.
Em Londrina começamos a assistir cenas que imaginávamos possíveis apenas em cidades como São Paulo, Rio ou Salvador, especialmente neste final de ano, com guerra de gangues, homicídios sucessivos, execuções sumárias evidenciando que nossa cidade não está imune à degradação do tecido social brasileiro, fruto da história de exploração da minoria sobre a maioria.
Não tenho dúvida de que se o governo estadual oferecesse uma polícia melhor remunerada, treinada para agir integrada com a população, especialmente de nossa periferia, melhor equipada, teríamos um clima de maior segurança, mas certamente, nesta conjuntura seria insuficiente, pois estaria agindo nos efeitos e não nas causas.
Precisamos, todos nós, políticos, religiosos, empresários, cidadãos em geral, enfrentarmos no município a questão da segurança pública, pois enquanto não temos governos estaduais e federal voltados para a maioria, devemos agir com que temos à mão.
Sem deixarmos de cobrar do governo estadual o cumprimento de suas responsabilidades constitucionais, sem desconsiderarmos que a crise social gerada por uma política econômica irresponsável deva ser mudada, e que teremos oportunidade nas próximas eleições, é preciso agir. Rápido. Nossos jovens estão morrendo.
ANDRÉ VARGAS é vereador em Londrina e presidente estadual do Partido dos Trabalhadores (PT)





