Há algum tempo, a terapia com células-tronco se tornou a única esperança de cura para um grande número de pacientes. Ao mesmo tempo, não demorou a aparecer falsos médicos, indicando tratamentos para os mais variados tipos de doença. O alerta é que as células-tronco não curam, mas regeneram um tecido afetado por ela ou por tratamento, como no caso de leucemia. Por esse motivo, não são válidas para todas as patologias. Se não for conhecida a causa da doença, as novas células serão afetadas novamente.

O médico hematologista e hemoterapeuta Luis Gabriel Fernández Turkowski participou de um projeto de terapia de células-tronco para doenças cardiológicas do Hospital Universitário de Londrina e explica o motivo de tanta polêmica em torno dessa terapia. Em entrevista à FOLHA, ele afirma que, para tornar viáveis alguns tratamentos, é necessário passar por cima de várias questões éticas, como a utilização de embriões humanos. Outra questão polêmica é o estoque de cordões umbilicais, fonte de células-tronco. ''Os bancos de medula são mais viáveis, além disso, para algumas doenças, as células do próprio paciente não servirão para nada'', alerta Luis Gabriel.

O que são células-tronco?
São células indiferenciadas. Todas as células, desde que são geradas até cumprirem sua função, passam por etapa de amadurecimento, o que chamamos de diferenciação. É uma célula precursora que pode se transformar em vários outros tipos de célula.

Quais são os tipos de células-tronco?
São três fontes. O embrião, o cordão umbilical e a medula óssea, que é precursora das células do sangue, mas se você estimular, pode se diferenciar em outras células.

Por que a célula do embrião é considerada melhor do que a célula do cordão umbilical?
Em teoria ela é mais indiferenciada, mais primitiva. A célula de medula, apesar de ser indiferenciada, já iria para formação do sangue, já tem um papel. Quanto mais primitiva, melhor a qualidade dela para esses fins.

Por que há tanta polêmica envolvendo o uso dos embriões, uma vez que os usados em tratamentos já iriam ser descartados pelas clínicas de fertilização?
Esse é um dilema grande. Para os cientistas, onde está a moralidade? Está em salvar vidas de milhares de pessoas que morrem todos os dias por causa de doenças degenerativas. Por outro lado, devemos entender que toda vez que você vai regulamentar uma tecnologia nova há algumas dificuldades como a incerteza nos efeitos causados por utilização desses novos procedimentos e os benefícios a longo prazo. Temos ainda a questão de usar um embrião para tratar uma doença. Por exemplo: se colocamos uma célula em uma pessoa que era diabética, o pâncreas volta a produzir insulina. A pessoa volta a comer, volta a fumar, volta a fazer tudo o que não poderia fazer, e daqui a pouco vai querer fazer o tratamento com célula-tronco de novo. E aí?

Se formos pensar assim também não seria válido fazer transplante de órgãos...
A questão é a seguinte: onde há opção, você acredita que todo mundo vai seguir as regras? Ou será que pode começar a haver comércio ilegal?
A polêmica também passa pela preocupação de que a utilização dessas novas técnicas possam levar progressivamente a uma desumanização, um dano irreparável ao respeito à vida que existe em nossa cultura. Até que ponto você vai começar a tratar um embrião como produto? De repente vão começar a produzir embriões com esse fim. Hoje é sobra de um procedimento que é aceito, a fertilização. Lógico que a sociedade precisa ser ouvida, pois quem sofre as consequências é ela. Nunca você vai ouvir só a opinião do cientista para fazer uma lei, todos têm que participar.

Quais as doenças que podem ser tratadas com as células-tronco?
São várias, mas em geral, as que chamamos de doenças crônicas degenerativas. Diabetes, doenças cardiovasculares, cerebrais, neurológicas, e câncer, na regeneração de tecidos que foram agredidos pela doença ou pelo tratamento da doença.

Muitos casais guardam o cordão umbilical do filho. É válido?
Tecnicamente isso é viável. É feito e permitido, desde que seja dentro das normas aprovadas. Se vale a pena ou não é muito mais complicado avaliar. Qual a chance que você tem de uma pessoa desenvolver uma doença para a qual aquelas células podem te ajudar? Qual o custo de armazenar isso, qual a viabilidade de armazenar isso em larga escala? O interesse é comercial. Às vezes a pessoa que tem dinheiro, que gasta sem olhar para o preço, se você disser que há possibilidade do filho usar no futuro, ela paga. Até que ponto isso vai trazer benefício, nós não sabemos.

mockup