Rafael, o grande - Dora Kramer
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sexta-feira, 08 de janeiro de 1999
Dora Kramer 
A frieza da Esplanada dos Ministérios, a sisudez do planalto central e o tedioso provincianismo do poder que aguardem a chegada do novo ministro de Esportes e Turismo a Brasília. Engenheiro, urbanista, carnavalesco, amante da ópera, do samba, poeta bissexto mas já dramatizado por Denise Stoklos, Rafael Greca se apresenta e pede passagem: Quero ousar como os loucos, porque se me incluir entre os prudentes corro o risco de só cumprir o expediente.
A frase, de um conselheiro do Império, é a epígrafe da tese de doutorado do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Celso Lafer, sobre o governo JK. Rafael a adota como lema para resumir o espírito que pretende imprimir à sua pasta. A palavra-chave é entusiasmo que, no grego, quer dizer cheio de Deus. É assim que chego totalmente seduzido pela oportunidade de participar de uma utopia do possível.
Como se vê, com Rafael Greca é tudo na base da grandiloquencia. A começar pela própria figura do personagem em questão. Com 140 quilos de peso e várias passagens pelo spa curitibano da Lapinha, em matéria de esportes acha que estaria agora mais apto ao sumô. Dei a idéia ao Fernando Henrique e ele achou que seria um bom caminho, diverte-se.
Aos 42 anos de idade, já foi vereador, duas vezes deputado estadual, prefeito de Curitiba, candidato preterido ao Senado na última eleição por causa de um acordo do governador Jaime Lerner - seu criador na política - com Álvaro Dias, elegeu-se deputado federal pelo PFL depois de deixar o PDT.
Deixou de ser senador, mas virou ministro. E por isso, brinca, sente-se o próprio José do Egito. Filho de Jacó, que, vendido como escravo pelos irmãos, ressurgiu tempos depois como figura de destaque da corte do faraó.
Faz questão de dizer que chegou ao Ministério com o apoio de Lerner, Antônio Carlos Magalhães, Marco Maciel e Jorge Bornhausen.
A intenção nítida é a de juntar todas as pontas do PFL nacional sem se esquecer da política da província. Sou um descobridor, mas nunca perco a referência da aldeia. A minha é Curitiba.
Viajante compulsivo, do mundo só lhe escaparam a Austrália e alguns países da África e, do Brasil, o extremo norte com alguma coisa do Centro-Oeste, Rafael assume a pasta do Turismo com o projeto de abrir o Brasil ao turismo de massa. Para brasileiros e estrangeiros.
De imediato, isso quer dizer uma negociação com as empresas aéreas e hotéis para baratear os pacotes de viagens. É um absurdo que tenhamos aqui pacotes de R$ 800 para uma semana em Miami e no país uma viagem dessas não saia por menos de R$ 5.000. Em Londres, o motorista de táxi pode ir tomar sol em Goa (Índia), mas não pode fazer o mesmo em Natal ou Fortaleza; isso precisa ser mudado para que se democratize o acesso ao Brasil, fala pulando de uma ponta à outra do assunto numa velocidade de ciclone.
Rafael Greca é assim, a gente faz uma pergunta simples procurando saber apenas as linhas gerais de seus projetos e ele dá uma aula detalhada a respeito das 250 milhões de idéias que passam por sua cabeça. Por exemplo, numa mesma resposta juntou projetos de turismo religioso, turismo cultural, trilhas do conhecimento, abertura dos santuários ecológicos à visitação, planos de capacitação de jovens para trabalhar com turismo, de projetos educativos sobre esportes com as grandes redes de televisão e, no meio de tudo isso, ainda imaginou um mundialito de futebol para comemorar os 500 anos do Brasil.
Por que não uma Copa do Mundo aqui no ano 2000?
Porque a Copa do Mundo é em 2002 no Japão e na Coréia do Sul.
E daí? Não tem importância, fazemos uma aqui só para comemorar nem que seja só entre os países do Mercosul.
Pois é por ser absolutamente comemorativo que o ministro não perde uma festa. Aliás, quando pode, multiplica as celebrações. Só de festas de réveillon, foi a três no Rio, incluindo a do casal Roberto Marinho. No Carnaval, será como a Santíssima Trindade: estará ao mesmo tempo no Sambódromo, em Florianópolis e em Salvador.
Enquanto isso, vai pensando em como dar substância a seus projetos na estrutura do ministério. Por hora, Rafael quer montar um conselho com pessoas especializadas não apenas tecnicamente, mas que o ajudem a formular políticas para cada área. Quero gente que pense, mas que também saiba como executar, porque só o que a gente faz é o que existe.
Por exemplo, no futebol vai querer a assessoria do jornalista Juca Kfouri. Convidou também para trabalhar com ele dois atletas campeões: Dailza Damas, nadadora que já atravessou o Canal da Mancha e contornou a nado a Ilha de Fernando de Noronha, e Waldemar Niclewicz, que em 1995 escalou o Monte Everest, no Himalaia.
Ele ainda não tem uma idéia precisa de como as coisas vão funcionar, mas sabe como quer que elas funcionam: Primeiro imaginamos tudo o que queremos fazer e depois vamos encaixando os atos, como uma ópera.
- Dora Kramer é jornalista. Artigo transcrito do Jornal do Brasil de Quinta-feira, 31 de dezembro de 1998


